Buscar
  • accunha

2 - Memórias Póstumas de Brás Cubas Capítulo 13 a 30.


CAPÍTULO XIII / UM SALTO

Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a

enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar

cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas

praias, onde quer que fosse propício a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições

árduas e longas, e pouco mais, muito pouco e muito leve. Só era

pesada, a palmatória, e ainda assim... Ó palmatória, terror dos meus

dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho

mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia,

a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada

dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha

alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele

espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias

tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e

compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que

é das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo,

nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as

tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva à mostra,

barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada

inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três

anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da Rua do

Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um

dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo

um preto velho, — ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da

escrita.

Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo

nesta página: Ludgero Barata, — um nome funesto, que servia aos

meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse

então era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana,

havia de lhe deixar na algibeira das calças, — umas largas calças de

enfiar —, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata

morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo,

circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os últimos nomes: éramos

sevandijas, capadócios, malcriados, moleques. — Uns tremiam,

outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto,

com os olhos espetados no ar.

Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância, nunca em toda

a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso.

Era a flor, e não já da escola, senão de toda a cidade. A mãe, viúva,

com alguma coisa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado,

asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrás, um pajem que nos

deixava gazear a escola, ir caçar ninhos de pássaros, ou perseguir

lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição, ou

simplesmente arruar, à toa, como dois peraltas sem emprego. E de

imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas

festas do Espírito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele

escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia,

qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa

magnificência nas atitudes, nos meneios. Quem diria que...

Suspendamos a pena; não adiantemos os sucessos. Vamos de um

salto a 1822, data da nossa independência política, e do meu

primeiro cativeiro pessoal.

CAPÍTULO XIV / O PRIMEIRO BEIJO

Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por

trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição

verdadeiramente máscula. Como ostentasse certa arrogância, não se

distinguia bem se era uma criança, com fumos de homem, se um

homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e

audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e

sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o

corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo

medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século. O pior é que o

estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o

realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão,

o transportou para os seus livros.

Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se

imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte

pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém

a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é

casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou

se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama

espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os

rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um

hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade,

porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri, vítima

da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela

tinha apenas doze anos.

Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou

hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e

mal chegava a entender a moral do código. Era boa moça, lépida,

sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que

lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e

berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes.

Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado

e tísico, — uma pérola.

Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminárias, logo

que constou a declaração da independência, uma festa de primavera,

um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu;

vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude.

Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto,

ondulante, um desgarre, alguma coisa que nunca achara nas

mulheres puras. — Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão

pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir

namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho,

chamaram-lhe “linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a

meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.

Três dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a

uma ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela.

O Xavier, com todos os seus tubérculos, presidia ao banquete

noturno, em que eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para

a dona da casa. Que gentil que estava a espanhola! Havia mais uma

meia dúzia de mulheres, — todas de partido —, e bonitas, cheias de

graça, mas a espanhola... O entusiasmo, alguns goles de vinho, o

gênio imperioso, estouvado, tudo isso me levou a fazer uma coisa

única; à saída, à porta da rua, disse a meu tio que esperasse um

instante, e tornei a subir as escadas.

— Esqueceu alguma coisa? perguntou Marcela de pé, no patamar.

— O lenço.

Ela ia abrir-me caminho para tornar à sala; eu segurei-lhe nas mãos,

puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ela disse alguma

coisa, se gritou, se chamou alguém; não sei nada; sei que desci outra

vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ébrio.

CAPÍTULO XV / MARCELA

Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela, não

já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a

um tempo manhoso e teimoso. Que, em verdade, há dois meios de

granjear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de

Europa, e o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de

Danae, três inventos do Padre Zeus, que, por estarem fora da moda,

aí ficam trocados no cavalo e no asno. Não direi as traças que urdi,

nem as peitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as

esperas baldadas, nem nenhuma outra dessas coisas preliminares.

Afirmo-lhes que o asno foi digno do corcel, — um asno de Sancho,

deveras filósofo, que me levou à casa dela, no fim do citado período;

apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o pastar.

Primeira comoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal

devia ser, na criação bíblica, o efeito do primeiro sol. Imagina tu esse

efeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em

flor. Pois foi a mesma coisa, leitor amigo, e se alguma vez contaste

dezoito anos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.

Teve duas fases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome,

que eu de nomes não curo, teve a fase consular e a fase imperial. Na

primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que ele jamais

acreditasse dividir comigo o governo de Roma; mas, quando a

credulidade não pôde resistir à evidência, o Xavier depôs as insígnias,

e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a fase cesariana.

Era meu o universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me

preciso coligir dinheiro, multiplicá-lo, inventá-lo. Primeiro explorei as

larguezas de meu pai; ele dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem

repreensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz

e que ele o fora também. Mas a tal extremo chegou o abuso, que ele

restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então

recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma coisa, que me dava

às escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso último: entrei a

sacar sobre a herança de meu pai, a assinar obrigações, que devia

resgatar um dia com usura.

— Em verdade, dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda,

alguma jóia: em verdade, você quer brigar comigo... Pois isto é coisa

que se faça... um presente tão caro...

E, se era jóia, dizia isto a contemplá-la entre os dedos, a procurar

melhor luz, a ensaiá-la em si, e a rir, e a beijar-me com uma

reincidência impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-selhe

a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vê-la assim.

Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe

quantas podia obter; Marcela juntava-as todas dentro de uma

caixinha de ferro, cuja chave ninguém nunca jamais soube onde

ficava; escondia-a por medo dos escravos. A casa em que morava,

nos Cajueiros, era própria. Eram sólidos e bons os móveis, de

jacarandá lavrado, e todas as demais alfaias, espelhos, jarras,

baixela, — uma linda baixela da Índia, que lhe doara um

desembargador. Baixela do diabo, deste-me grandes repelões aos

nervos. Disse-o muita vez à própria dona; não lhe dissimulava o tédio

que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho.

Ela ouvia-me e ria, com uma expressão cândida, — cândida e outra

coisa, que eu nesse tempo não entendia bem; mas agora,

relembrando o caso, penso que era um riso misto, como devia ter a

criatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare

com um serafim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha

notícia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais.

Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo colar, que

ela vira num joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que

o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo.

— Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéia, concluiu

ameaçando-me com o dedo.

E logo, súbita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me

com elas o rosto, puxou-me a si e fez um trejeito gracioso, um momo

de criança. Depois, reclinada na marquesa, continuou a falar daquilo,

com simplicidade e franqueza. Jamais consentiria que lhe

comprassem os afetos. Vendera muita vez as aparências, mas a

realidade, guardava-a para poucos. Duarte, por exemplo, o alferes

Duarte, que ela amara deveras, dois anos antes, só a custo

conseguia dar-lhe alguma coisa de valor, como me acontecia a mim;

ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso preço, como

a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de festas.

— Esta cruz...

Dizia isto, metendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro,

presa a uma fita azul e pendurada ao colo.

— Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pai que...

Marcela abanou a cabeça com um ar de lástima:

— Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te não

molestar? Vem cá, chiquito, não sejas assim desconfiado comigo...

Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos

separarmos...

— Não digas isso! bradei eu.

— Tudo cessa! Um dia...

Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as

mãos, tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me

baixo ao ouvido: — Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lho com os

olhos úmidos. No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado.

— Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.

Marcela teve primeiro um silêncio indignado; depois fez um gesto

magnífico: tentou atirar o colar à rua. Eu retive-lhe o braço; pedi-lhe

muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a jóia. Sorriu

e ficou.

Entretanto, pagava-me à farta os sacrifícios; espreitava os meus mais

recônditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com

alma, sem esforço, por uma espécie de lei da consciência e

necessidade do coração. Nunca o desejo era razoável, mas um

capricho puro, uma criancice, vê-la trajar de certo modo, com tais e

tais enfeites, este vestido e não aquele, ir a passeio ou outra coisa

assim, e ela cedia a tudo, risonha e palreira.

— Você é das Arábias, dizia-me.

E ia a pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediência de

encantar.

CAPÍTULO XVI / UMA REFLEXÃO IMORAL

Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma

correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo XIV, que Marcela

morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a

mesma coisa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros deste

mundo, gente muito vista na gramática. Bons joalheiros, que seria do

amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto

do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu

pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque

não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é

que a mais bela testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um

diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada.

Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me...

CAPÍTULO XVII / DO TRAPÉZIO E OUTRAS COISAS

...Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis;

nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos,

sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um

capricho juvenil.

— Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma

Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e

não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:

— Gatuno, sim senhor; não é outra coisa um filho que me faz isto...

Sacou da algibeira os meus títulos de dívida, já resgatados por ele, e

sacudiu-mos na cara. — Vês, peralta? é assim que um moço deve

zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhamos o

dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez

ou tomas juízo, ou ficas sem coisa nenhuma.

Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado,

e nada opus à ordem da viagem, como de outras vezes fizera;

ruminava a idéia de levar Marcela comigo. Fui ter com ela; expus-lhe

a crise e fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar,

sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não

podia ir para a Europa.

— Por que não?

— Não posso, disse ela com ar dolente; não posso ir respirar aqueles

ares, enquanto me lembrar de meu pobre pai, morto por Napoleão...

— Qual deles: o hortelão ou o advogado?

Marcela franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes;

depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxelho

a mucama, numa salva de prata, que fazia parte dos meus onze

contos. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta

foi dar com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o líquido no

regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora.

Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe

que ela era um monstro, que jamais me tivera amor, que me deixara

descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chameilhe

muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos.

Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria

como um pedaço de mármore. Tive ímpetos de a estrangular, de a

humilhar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas

a ação trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos pés dela, contrito e

súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses da nossa felicidade

solitária, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no

chão, com a cabeça entre os joelhos dela, apertando-lhe muito as

mãos; ofegante, desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não

desamparasse... Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim,

calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar

enfastiado:

— Não me aborreça, disse.

Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a

alcova. — Não! bradei eu; não hás de entrar... não quero... Ia a

lançar-lhe as mãos: era tarde; ela entrara e fechara-se.

Saí desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros

mais excêntricos e desertos, onde fosse difícil dar comigo. Ia

mastigando o meu desespero, com uma espécie de gula mórbida;

evocava os dias, as horas, os instantes de delírio, e ora me

comprazia em crer que eles eram eternos, que tudo aquilo era um

pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeitá-los de

mim, como um fardo inútil. Então resolvia embarcar imediatamente

para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a

idéia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades

e remorsos. Que ela amara-me a tonta, devia de sentir alguma coisa,

uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte... Nisto, o dente do

ciúme enterrava-se-me no coração; toda a natureza bradava que era

preciso levar Marcela comigo.

— Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.

Enfim, tive uma idéia salvadora... Ah! trapézio dos meus pecados,

trapézio das concepções abstrusas! A idéia salvadora trabalhou nele,

como a do emplasto (capítulo II). Era nada menos que fasciná-la,

fasciná-la muito, deslumbrá-la, arrastá-la; lembrou-me pedir-lhe por

um meio mais concreto do que a súplica. Não medi as conseqüências;

recorri a um derradeiro empréstimo; fui à Rua dos Ourives, comprei a

melhor jóia da cidade, três diamantes grandes encastoados num

pente de marfim; corri à casa de Marcela.

Marcela estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado, uma

das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pezinho calçado de meia de

seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar quieto e sonolento.

— Vem comigo, disse eu, arranjei recursos... temos muito dinheiro,

terás tudo o que quiseres... Olha, toma.

E mostrei-lhe o pente com os diamantes... Marcela teve um leve

sobressalto, ergueu metade do corpo, e, apoiada num cotovelo, olhou

para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos;

tinha-se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabelos, coligios,

enlacei-os à pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho,

e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximarme,

corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma

simetria naquela desordem, tudo com uma minuciosidade e um

carinho de mãe.

— Pronto, disse eu.

— Doudo! foi a sua primeira resposta.

A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrifício com um

beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a

matéria e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a

cabeça, com um ar de repreensão:

— Ora você! dizia.

— Vens comigo?

Marcela refletiu um instante. Não gostei da expressão com que

passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a jóia;

mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ela me respondeu

resolutamente:

— Vou. Quando embarcas?

— Daqui a dois ou três dias.

— Vou.

Agradeci-lho de joelhos. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros

dias, e disse-lho; ela sorriu, e foi guardar a jóia, enquanto eu descia

a escada.

CAPÍTULO XVIII / VISÃO DO CORREDOR

No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns

instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéias dispersas,

reaver-me enfim no meio de tantas sensações profundas e

contrárias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes corrompiamme

um pouco a felicidade; mas não é menos certo que uma dama

bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. E depois

eu confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos, mas amavame...

— Um anjo! murmurei olhando para o teto do corredor.

E aí, como um escárnio, vi o olhar de Marcela, aquele olhar que

pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava

de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e

o meu. Pobre namorado das Mil e Uma Noites! Vi-te ali mesmo correr

atrás da mulher do vizir, ao longo da galeria, ela a acenar-te com a

posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida,

donde saíste à rua, onde todos os correeiros te apuparam e

desancaram. Então pareceu-me que o corredor de Marcela era a

alameda, e que a rua era a de Bagdá. Com efeito, olhando para a

porta, vi na calçada três dos correeiros, um de batina, outro de libré,

outro à paisana, os quais todos três entraram no corredor, tomaramme

pelos braços, meteram-me numa sege, meu pai à direita, meu tio

cônego à esquerda, o da libré na boléia, e lá me levaram à casa do

intendente de polícia, donde fui transportado a uma galera que devia

seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resistência era

inútil.

Três dias depois segui barra fora, abatido e mudo. Não chorava

sequer; tinha uma idéia fixa... Malditas idéias fixas! A dessa ocasião

era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela.

CAPÍTULO XIX / A BORDO

Éramos onze passageiros, um homem doido, acompanhado pela

mulher, dois rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes e dois

criados. Meu pai recomendou-me a todos, começando pelo capitão do

navio, que aliás tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais,

levava a mulher tísica em último grau.

Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto,

ou se meu pai o pôs de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de

cima; chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar

comigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quase sempre numa

camilha rasa, a tossir muito, e a afiançar que me havia de mostrar os

arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente; era

impossível que não morresse de uma hora para outra. O capitão

fingia não crer na morte próxima, talvez por enganar-se a si mesmo.

Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino

de uma mulher tísica, no meio do oceano? O mundo para mim era

Marcela.

Uma noite, logo no fim de uma semana, achei ensejo propício para

morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto à

amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.

— Algum temporal? disse eu.

— Não, respondeu ele estremecendo; não; admiro o esplendor da

noite. Veja; está celestial!

O estilo desmentia da pessoa, assaz rude e aparentemente alheia a

locuções rebuscadas. Fitei-o; ele pareceu saborear o meu espanto.

No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua,

perguntando-me por que não fazia uma ode à noite; respondi-lhe que

não era poeta. O capitão rosnou alguma coisa, deu dois passos,

meteu a mão no bolso, sacou um pedaço de papel, muito

amarrotado; depois, à luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana

sobre a liberdade da vida marítima. Eram versos dele.

— Que tal?

Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que ele me apertou a

mão com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitoume

dois sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da

parte da mulher. — Lá vou, disse ele; e recitou-me o terceiro soneto,

com pausa, com amor.

Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espírito os

pensamentos maus; preferi dormir, que é um modo interino de

morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que

meteu medo a toda a gente, menos ao doido; esse entrou a dar

pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, numa berlinda; a morte

de uma filha fora a causa da loucura. Não, nunca me há de esquecer

a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das gentes e

dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a

saltarem-lhe da cara, pálido, cabelo arrepiado e longo. Às vezes

parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas cruzes com os

dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito,

desesperadamente. A mulher não podia já cuidar dele; entregue ao

terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do Céu.

Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma diversão

excelente à tempestade do meu coração. Eu, que meditava ir ter com

a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo.

O capitão perguntou-me se tivera medo, se estivera em risco, se não

achara sublime o espetáculo: tudo isso com um interesse de amigo.

Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar; o capitão

perguntou-me se não gostava de idílios piscatórios; eu respondi-lhe

ingenuamente que não sabia o que era.

— Vai ver, respondeu.

E recitou-me um poemazinho, depois outro, — uma égloga, — e

enfim cinco sonetos, com os quais rematou nesse dia a confidência

literária. No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o

capitão que só por motivos graves abraçara a profissão marítima,

porque a avó queria que ele fosse padre, e com efeito possuía

algumas letras latinas; não chegou a ser padre, mas não deixou de

ser poeta, que era a sua vocação natural. Para prová-lo, recitou-me

logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um

fenômeno: os ademanes que ele usava eram tais, que uma vez me

fizeram rir; mas o capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para

dentro de si mesmo, que não viu nem ouviu nada.

Os dias passavam, e as águas, e os versos, e com eles ia também

passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do

almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao

fim da semana.

— Já! exclamei.

— Passou muito mal a noite.

Fui vê-la; achei-a, na verdade, quase moribunda, mas falando ainda

de descansar em Lisboa alguns dias, antes de ir comigo a Coimbra,

porque era seu propósito levar-me à Universidade. Deixei-a

consternado; fui achar o marido a olhar para as vagas, que vinham

morrer no costado do navio, e tratei de o consolar; ele agradeceume,

relatou-me a história dos seus amores, elogiou a fidelidade e a

dedicação da mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-mos.

Neste ponto vieram buscá-lo da parte dela; corremos ambos; era

uma crise. Esse e o dia seguinte foram cruéis; o terceiro foi o da

morte; eu fugi ao espetáculo, tinha-lhe repugnância. Meia hora

depois encontrei o capitão, sentado num molho de cabos, com a

cabeça nas mãos, disse-lhe alguma coisa de conforto.

— Morreu como uma santa, respondeu ele; e, para que estas

palavras não pudessem ser levadas à conta de fraqueza, ergueu-se

logo, sacudiu a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e

profundo. — Vamos, continuou, entreguemo-la à cova que nunca

mais se abre.

Efetivamente, poucas horas depois, era o cadáver lançado ao mar,

com as cerimônias do costume. A tristeza murchara todos os rostos;

o do viúvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo

raio. Grande silêncio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo,

fechou-se, — uma leve ruga, — e a galera foi andando. Eu deixei-me

estar alguns minutos à popa, com os olhos naquele ponto incerto do

mar em que ficava um de nós... Fui dali ter com o capitão, para

distraí-lo.

— Obrigado, disse-me ele compreendendo a intenção; creia que

nunca me esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lhos há de

pagar. Pobre Leocádia! tu te lembrarás de nós no Céu.

Enxugou com a manga uma lágrima importuna; eu busquei um

derivativo na poesia, que era a paixão dele. Falei-lhe dos versos, que

me lera, e ofereci-me para imprimi-los. Os olhos do capitão

animaram-se um pouco. — Talvez aceite, disse ele; mas não sei...

são bem frouxos versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e

mos desse antes do desembarque.

— Pobre Leocádia! murmurou sem responder ao pedido. Um

cadáver... o mar... o céu... o navio...

No dia seguinte veio ler-me um epicédio composto de fresco, em que

estavam memoradas as circunstâncias da morte e da sepultura da

mulher; leu-mo com a voz comovida deveras, e a mão trêmula; no

fim perguntou-me se os versos eram dignos do tesouro que perdera.

— São, disse eu.

— Não haverá estro, ponderou ele, no fim de um instante, mas

ninguém me negará sentimento, se não é que o próprio sentimento

prejudicou a perfeição...

— Não me parece; acho os versos perfeitos.

— Sim, eu creio que... Versos de marujo.

— De marujo poeta.

Ele levantou os ombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a

composição, mas já então sem tremuras, acentuando as intenções

literárias, dando relevo às imagens e melodia aos versos. No fim,

confessou-me que era a sua obra mais acabada; eu disse-lhe que

sim; ele apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro.


CAPÍTULO XX / BACHARELO-ME

Um grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido,

devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago. Uma

idéia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Grande futuro?

Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político, ou até

bispo, — bispo que fosse, — uma vez que fosse um cargo, uma

preeminência, uma grande reputação, uma posição superior. A

ambição, dado que fosse águia, quebrou nessa ocasião o ovo, e

desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus, amores! adeus,

Marcela! dias de delírio, jóias sem preço, vida sem regímen, adeus!

Cá me vou às fadigas e à glória; deixo-vos com as calcinhas da

primeira idade.

E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A

Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as

muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel;

deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela

festa que me encheu de orgulho e de saudades, — principalmente de

saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada

de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e

petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e

liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das

constituições escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em

pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no

cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que

orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me

dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as

margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas

sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar

os outros, de influir, de gozar, de viver, — de prolongar a

Universidade pela vida adiante...

CAPÍTULO XXI / O ALMOCREVE

Vai então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustigueio,

ele deu dois corcovos, depois mais três, enfim mais um, que me

sacudiu fora da sela, com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou

preso no estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já

então, espantado, disparou pela estrada fora. Digo mal: tentou

disparar, e efetivamente deu dois saltos, mas um almocreve, que ali

estava, acudiu a tempo de lhe pegar na rédea e detê-lo, não sem

esforço nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e

pus-me de pé.

— Olhe do que vosmecê escapou, disse o almocreve.

E era verdade; se o jumento corre por ali fora, contundia-me

deveras, e não sei se a morte não estaria no fim do desastre; cabeça

partida, uma congestão, qualquer transtorno cá dentro, lá se me ia a

ciência em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo;

eu sentia-no no sangue que me agitava o coração. Bom almocreve!

enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo, ele cuidava de

consertar os arreios do jumento, com muito zelo e arte. Resolvi darlhe

três moedas de ouro das cinco que trazia comigo; não porque tal

fosse o preço da minha vida, — essa era inestimável; mas porque era

uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou. Está

dito, dou-lhe as três moedas.

— Pronto, disse ele, apresentando-me a rédea da cavalgadura.

— Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda não estou em mim...

— Ora qual!

— Pois não é certo que ia morrendo?

— Se o jumento corre por aí fora, é possível; mas, com a ajuda do

Senhor, viu vosmecê que não aconteceu nada.

Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as cinco

moedas de ouro, e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a

gratificação, se não bastavam duas moedas. Talvez uma. Com efeito,

uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria.

Examinei-lhe a roupa; era um pobre-diabo, que nunca jamais vira

uma moeda de ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir à luz

do sol; não a viu o almocreve, porque eu tinha-lhe voltado as costas;

mas suspeitou-o talvez, entrou a falar ao jumento de um modo

significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juízo, que o

“senhor doutor” podia castigá-lo; um monólogo paternal. Valha-me

Deus! até ouvi estalar um beijo: era o almocreve que lhe beijava a

testa.

— Olé! exclamei.

— Queira vosmecê perdoar, mas o diabo do bicho está a olhar para a

gente com tanta graça...

Ri-me, hesitei, meti-lhe na mão um cruzado em prata, cavalguei o

jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado, melhor direi um

pouco incerto do efeito da pratinha. Mas a algumas braças de

distância, olhei para trás, o almocreve fazia-me grandes cortesias,

com evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser

assim mesmo; eu pagara-lhe bem, pagara-lhe talvez demais. Meti os

dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti umas moedas de

cobre; eram os vinténs que eu devera ter dado ao almocreve, em

lugar do cruzado em prata. Porque, enfim, ele não levou em mira

nenhuma recompensa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao

temperamento, aos hábitos do ofício; acresce que a circunstância de

estar, não mais adiante nem mais atrás, mas justamente no ponto do

desastre, parecia constituí-lo simples instrumento da Providência; e

de um ou de outro modo, o mérito do ato era positivamente nenhum.

Fiquei desconsolado com esta reflexão, chamei-me pródigo, lancei o

cruzado à conta das minhas dissipações antigas; tive (por que não

direi tudo?) tive remorsos.

CAPÍTULO XXII / VOLTA AO RIO

Jumento de uma figa, cortaste-me o fio às reflexões. Já agora não

digo o que pensei dali até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na

península e em outros lugares da Europa, da velha Europa, que nesse

tempo parecia remoçar. Não, não direi que assisti às alvoradas do

romantismo, que também eu fui fazer poesia efetiva no regaço da

Itália; não direi coisa nenhuma. Teria de escrever um diário de

viagem e não umas memórias, como estas são, nas quais só entra a

substância da vida.

Ao cabo de alguns anos de peregrinação, atendi às súplicas de meu

pai: — “Vem, dizia ele na última carta; se não vieres depressa,

acharás tua mãe morta!” Esta última palavra foi para mim um golpe.

Eu amava minha mãe; tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias

da última bênção que ela me dera, a bordo do navio. “Meu triste

filho, nunca mais te verei”, soluçava a pobre senhora apertando-me

ao peito. E essas palavras ressoavam-me agora, como uma profecia

realizada.

Note-se que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de

lord Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o

pretérito, crendo-me na Sereníssima República. É verdade; uma vez

aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse

dia. — Que doge, signor mio? Caí em mim, mas não confessei a

ilusão; disse-lhe que a minha pergunta era um gênero de charada

americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que gostava

muito das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo

isso, o locandeiro, o doge, a Ponte dos Suspiros, a gôndola, os versos

do lorde, as damas do Rialto, deixei tudo e disparei como uma bala

na direção do Rio de Janeiro.

Vim... Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me

a escrever, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo meu,

que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores

pesadões; e nós não somos um público in-folio, mas in-12, pouco

texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas... Não,

não alonguemos o capítulo.

CAPÍTULO XXIII / TRISTE, MAS CURTO

Vim. Não nego que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensação

nova. Não era efeito da minha pátria política; era-o do lugar da

infância, a rua, a torre, o chafariz da esquina, a mulher de mantilha,

o preto do ganho, as coisas e cenas da meninice, buriladas na

memória. Nada menos que uma renascença. O espírito, como um

pássaro, não se lhe deu da corrente dos anos, arrepiou o vôo na

direção da fonte original, e foi beber da água fresca e pura, ainda não

mesclada do enxurro da vida.

Reparando bem, há aí um lugar-comum. Outro lugar-comum,

tristemente comum, foi a consternação da família. Meu pai abraçoume

com lágrimas. — Tua mãe não pode viver, disse-me. Com efeito,

não era já o reumatismo que a matava, era um cancro no estômago.

A infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro é indiferente às

virtudes do sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício. Minha irmã

Sabina, já então casada com o Cotrim, andava a cair de fadiga. Pobre

moça! dormia três horas por noite, nada mais. O próprio tio João

estava abatido e triste. D. Eusébia e algumas outras senhoras lá

estavam também, não menos tristes e não menos dedicadas.

— Meu filho!

A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o

rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era

menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara, como um dia

brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca. Mal

poderia conhecê-la; havia oito ou nove anos que nos não víamos.

Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos dela entre as minhas, fiquei

mudo e quieto, sem ousar falar, porque cada palavra seria um

soluço, e nós temíamos avisá-la do fim. Vão temor! Ela sabia que

estava prestes a acabar; disse-mo; verificamo-lo na seguinte manhã.

Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria,

repisada, que me encheu de dor e estupefação. Era a primeira vez

que eu via morrer alguém. Conhecia a morte de outiva; quando

muito, tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadáver, que

acompanhei ao cemitério, ou trazia-lhe a idéia embrulhada nas

amplificações de retórica dos professores de coisas antigas, — a

morte aleivosa de César, a austera de Sócrates, a orgulhosa de

Catão. Mas esse duelo do ser e do não ser, a morte em ação,

dolorida, contraída, convulsa, sem aparelho político ou filosófico, a

morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude

encarar. Não chorei; lembra-me que não chorei durante o

espetáculo: tinha os olhos estúpidos, a garganta presa, a consciência

boquiaberta. Quê? uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que

nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa,

esposa imaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida

pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia? Confesso que

tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano...

Triste capítulo; passemos a outro mais alegre.

CAPÍTULO XXIV / CURTO, MAS ALEGRE

Fiquei prostrado. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compêndio

de trivialidade e presunção. Jamais o problema da vida e da morte

me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o

abismo do Inexplicável; faltava-me o essencial, que é o estímulo, a

vertigem...

Para lhes dizer a verdade toda, eu refletia as opiniões de um

cabeleireiro, que achei em Módena, e que se distinguia por não as ter

absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por mais demorada que

fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; ele intercalava as

penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um

sabor... Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a

Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só

as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim;

embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de

locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Trateios

como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a

fraseologia, a casca, a ornamentação...

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a

minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de

um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a

luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar

os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações

que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de

embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em

tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a

hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença!

que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa,

deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitarse,

confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em

suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem

conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse

olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território

da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não

examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do

julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o

desdém dos finados.

CAPÍTULO XXV/ NA TIJUCA

Ui! Lá me ia a pena a escorregar para o enfático. Sejamos simples,

como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras

semanas depois da morte de minha mãe.

No sétimo dia, acabada a missa fúnebre, travei de uma espingarda,

alguns livros, roupa, charutos, um moleque, — o Prudêncio do

capítulo XI, — e fui meter-me numa velha casa de nossa propriedade.

Meu pai forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia

nem queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com

ela algum tempo, — duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve

a ponto de me levar à fina força. Era um bom rapaz este Cotrim;

passara de estróina a circunspecto. Agora comerciava em gêneros de

estiva, labutava de manhã até à noite, com ardor, com perseverança.

De noite, sentado à janela, a encaracolar as suíças, não pensava em

outra coisa. Amava a mulher e um filho, que então tinha, e que lhe

morreu alguns anos depois. Diziam que era avaro.

Renunciei tudo; tinha o espírito atônito. Creio que por então é que

começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela,

solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e sutil. — “Que bom que

é estar triste e não dizer coisa nenhuma!” — Quando esta palavra de

Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um

eco, um eco delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de

um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espírito

ainda mais cabisbaixo do que a figura, — ou jururu, como dizemos

das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com

uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do

aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora esta expressão,

leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes

concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e

daquele tempo.

Às vezes, caçava, outras dormia, outras lia, — lia muito, — outras

enfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéia em idéia, de

imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta.

As horas iam pingando uma a uma, o sol caía, as sombras da noite

velavam a montanha e a cidade. Ninguém me visitava; recomendei

expressamente que me deixassem só. Um dia, dois dias, três dias,

uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante

para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bulício. Com efeito,

ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o

espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros,

nem com a vista do arvoredo e do céu. Reagia a mocidade, era

preciso viver. Meti no baú o problema da vida e da morte, os

hipocondríacos do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e

ia fechá-lo, quando o moleque Prudêncio me disse que uma pessoa

do meu conhecimento se mudara na véspera para uma casa roxa,

situada a duzentos passos da nossa.

— Quem?

— Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusébia...

— Lembra-me... É ela?

— Ela e a filha. Vieram ontem de manhã.

Ocorreu-me logo o episódio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti

que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fora

impossível evitar as relações íntimas do Vilaça com a irmã do

sargento-mor; antes mesmo do meu embarque, já se boquejava

misteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio João

mandou-me dizer depois que o Vilaça, ao morrer, deixara um bom

legado a D. Eusébia, coisa que deu muito que falar em todo o bairro.

O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro assunto

na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me dado razão os

acontecimentos. Ainda porém que ma não dessem, 1814 lá ia longe,

e, com ele, a travessura, e o Vilaça, e o beijo da moita; finalmente,

nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela. Fiz comigo

essa reflexão e acabei de fechar o baú.

— Nhonhô não vai visitar sinhá D. Eusébia? perguntou-me o

Prudêncio. Foi ela quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.

Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por ocasião da morte

e do enterro; ignorava porém que ela houvesse prestado a minha

mãe esse derradeiro obséquio. A ponderação do moleque era

razoável; eu devia-lhe uma visita; determinei fazê-la imediatamente,

e descer.

CAPÍTULO XXVI / O AUTOR HESITA

Súbito ouço uma voz: — Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu

pai, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no baú

e recebi-o sem alvoroço. Ele esteve alguns instantes de pé, a olhar

para mim; depois estendeu-me a mão com um gesto comovido:

— Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.

— Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.

Não tinha almoçado; almoçamos juntos. Nenhum de nós aludiu ao

triste motivo da minha reclusão. Uma só vez falamos nisso, de

passagem, quando meu pai fez recair a conversa na Regência: foi

então que aludiu à carta de pêsames que um dos Regentes lhe

mandara. Trazia a carta consigo, já bastante amarrotada, talvez por

havê-la lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um

dos Regentes. Leu-ma duas vezes.

— Já lhe fui agradecer este sinal de consideração, concluiu meu pai, e

acho que deves ir também...

— Eu?

— Tu; é um homem notável, faz hoje as vezes de imperador. Demais

trago comigo uma idéia, um projeto, ou... sim, digo-te tudo; trago

dois projetos, um lugar de deputado e um casamento.

Meu pai disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando às

palavras um jeito e disposição, cujo fim era cavá-las mais

profundamente no meu espírito. A proposta, porém, desdizia tanto

das minhas sensações últimas, que eu cheguei a não entendê-la bem.

Meu pai não fraqueou e repetiu-a; encareceu o lugar e a noiva.

— Aceitas?

— Não entendo de política, disse eu depois de um instante; quanto à

noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.

— Mas os ursos casam-se, replicou ele.

— Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior...

Riu-se meu pai, e depois de rir, tornou a falar sério. Era-me

necessária a carreira política, dizia ele, por vinte e tantas razões, que

deduziu com singular volubilidade, ilustrando-as com exemplos de

pessoas do nosso conhecimento. Quanto à noiva, bastava que eu a

visse; se a visse, iria logo pedi-la ao pai, logo, sem demora de um

dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a

intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia

bolas de miolo de pão, a sorrir ou a refletir; e, para tudo dizer, nem

dócil nem rebelde à proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim

mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição

política eram bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte

de minha mãe me aparecia como um exemplo da fragilidade das

coisas, das afeições, da família...

— Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai. De-fini-

ti-va! repetiu, batendo as sílabas com o dedo.

Bebeu o último gole de café; repoltreou-se, e entrou a falar de tudo,

do Senado, da Câmara, da Regência, da restauração, do Evaristo, de

um coche que pretendia comprar, da nossa casa de Mata-cavalos...

Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente

num pedaço de papel, com uma ponta de lápis; traçava uma palavra,

uma frase, um verso, um nariz, um triângulo, e repetia-os muitas

vezes, sem ordem, ao acaso, assim:

arma virumque cano

A

Arma virumque cano

arma virumque cano

arma virumque

arma virumque cano

virumque

Maquinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa

dedução; por exemplo, foi o virumque que me fez chegar ao nome do

próprio poeta, por causa da primeira sílaba; ia a escrever virumque

— e sai-me Virgílio, então continuei:

Vir Virgílio

Virgílio Virgílio

Virgílio

Virgílio

Meu pai, um pouco despeitado com aquela indiferença, ergueu-se,

veio a mim, lançou os olhos ao papel...

— Virgílio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se

justamente Virgília.

CAPÍTULO XXVII / VIRGÍLIA?

Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois?...

A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos

meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas

minhas mais íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas uns

quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da

nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que ia lhe

coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque

isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha

os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe

maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita,

fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e

eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos

da criação. Era isto Virgília, e era clara, muito clara, faceira,

ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e

alguma devoção, — devoção, ou talvez medo; creio que medo.

Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa

que devia influir mais tarde na minha vida; era aquilo com dezesseis

anos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas páginas

vierem à luz, — tu que me lês, Virgília amada, não reparas na

diferença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei

quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não

me tornou rabugento, nem injusto.

— Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a verdade daquele

tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz

senhores da Terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a

instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos.

Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é

uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição,

que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição

definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

CAPÍTULO XXVIII / CONTANTO QUE...

— Virgília? interrompi eu.

— Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo

sem asas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um

azougue, e uns olhos... filha do Dutra...

— Que Dutra?

— O Conselheiro Dutra, não conheces; uma influência política. Vamos

lá, aceitas?

Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim;

declarei depois que estava disposto a examinar as duas coisas, a

candidatura e o casamento, contanto que...

— Contanto quê?

— Contanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que

posso ser separadamente homem casado ou homem público...

— Todo o homem público deve ser casado, interrompeu

sentenciosamente meu pai. Mas seja como queres; estou por tudo,

fico certo de que a vista fará fé! Demais, a noiva e o Parlamento são

a mesma coisa... isto é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação,

contanto que...

— Contanto quê?... interrompi eu, imitando-lhe a voz.

— Ah! brejeiro! Contanto que não te deixes ficar aí inútil, obscuro, e

triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver

brilhar, como deves, e te convém, e a todos nós; é preciso continuar

o nosso nome, continuá-lo e ilustrá-lo ainda mais. Olha, estou com

sessenta anos, mas se fosse necessário começar vida nova,

começava, sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás;

foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes

modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros

homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...

E foi por diante o mágico, a agitar diante de mim um chocalho, como

me faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da

hipocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos

amarela, e nada mórbida, — o amor da nomeada, o emplasto Brás

Cubas.

CAPÍTULO XXIX / A VISITA

Vencera meu pai; dispus-me a aceitar o diploma e o casamento,

Virgília e a Câmara dos Deputados. — As duas Virgílias, disse ele num

assomo de ternura política. Aceitei-os; meu pai deu-me dois fortes

abraços. Era o seu próprio sangue que ele, enfim, reconhecia.

— Desces comigo?

— Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusébia...

Meu pai torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu.

Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusébia. Achei-a a

repreender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir falar-me,

com um alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo.

Creio que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fezme

sentar ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de

contentamento:

— Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, há anos... Um

homenzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra de mim...

Disse-lhe que sim, que não era possível esquecer uma amiga tão

familiar de nossa casa. D. Eusébia começou a falar de minha mãe,

com muitas saudades, com tantas saudades, que me cativou logo,

posto me entristecesse. Ela percebeu-o nos meus olhos, e torceu a

rédea à conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os

estudos, os namoros... Sim, os namoros também; confessou-me que

era uma velha patusca. Nisto recordei-me do episódio de 1814, ela, o

Vilaça, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordá-lo, ouço um

ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:

— Mamãe... mamãe...


CAPÍTULO XXX / A FLOR DA MOITA

A voz a as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve à

porta, alguns instantes, ao ver gente estranha. Silêncio curto e

constrangido. D. Eusébia quebrou-o, enfim, com resolução e

franqueza:

— Vem cá, Eugênia, disse ela, cumprimenta o Dr. Brás Cubas, filho

do Sr. Cubas; veio da Europa.

E voltando-se para mim:

— Minha filha Eugênia.

Eugênia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe

fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da

cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabelo, cuja

ponta se desmanchara. — Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o

que isto é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me comoveu

um pouco; lembrou-me minha mãe, e, — direi tudo, — tive umas

cócegas de ser pai.

— Travessa? disse eu. Pois já não está em idade própria, ao que

parece.

— Quantos lhe dá?

— Dezessete.

— Menos um.

— Dezesseis. Pois então! é uma moça.

Não pôde Eugênia encobrir a satisfação que sentia com esta minha

palavra, mas emendou-se logo, e ficou como dantes, ereta, fria e

muda. Em verdade, parecia ainda mais mulher do que era; seria

criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassível,

tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circunstância lhe

diminuía um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarizamos; a

mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra, e ela

sorria com os olhos fúlgidos, como se lá dentro do cérebro lhe

estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de

diamante...

Digo lá dentro, porque cá fora o que esvoaçou foi uma borboleta

preta, que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as

asas em derredor de D. Eusébia. D. Eusébia deu um grito, levantouse,

praguejou umas palavras soltas: — T'esconjuro!... Sai, diabo!...

Virgem Nossa Senhora!...

— Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expeli a borboleta.

D. Eusébia sentou-se outra vez, ofegante, um pouco envergonhada;

a filha, pode ser que pálida de medo, dissimulava a impressão com

muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir comigo da

superstição das duas mulheres, um rir filosófico, desinteressado,

superior. De tarde, vi passar a cavalo a filha de D. Eusébia, seguida

de um pajem; fez-me um cumprimento com a ponta do chicote.

Confesso que me lisonjeei com a idéia de que, alguns passos adiante,

ela voltaria a cabeça para trás; mas não voltou.


Clique aqui para ler do capítulo 13 ao capítulo 30

Clique aqui para ler do capítulo 31 ao capítulo 58

Clique aqui para ler do capítulo 59 ao capítulo 84

Clique aqui para ler do capítulo 85 ao capítulo 116

Clique aqui para ler do capítulo 117 ao capítulo 152

Clique aqui para ler do capítulo 153 ao capítulo 160

Clique aqui para ler do capítulo 1 ao capítulo 12

4 visualizações