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História da biografia

Atualizado: 15 de Jul de 2019

O encanto pela vida


Fernanda Domiciano e Kátia Kishi publicaram, em fevereiro de 2014, na ComCiência, revista eletrônica de jornalismo científico, excelente reportagem sobre a história da biografia.Destacamos aqui partes do que elas escreveram.

O fascínio das pessoas por biografias vem desde a Antiguidade, período em que são encontradas notícias de textos biográficos, considerados como primeiras formas de escrita da história humana. 

A historiografia aponta que um dos primeiros relatos biográficos está presente na Inscrição de Bihistun, na Pérsia (atual Irã), onde o rei Dario I (550 - 486 a.C.) escreveu sobre si mesmo com objetivo de autoglorificar-se.

Dario governou o Império Aquemênida de 521 a 486 a.C. Por volta de 515 a.C., ele mandou escrever a história da sua ascensão ao poder e sobre suas guerras. A inscrição, que está em uma falésia perto da atual cidade de Bisistun, aos pés das montanhas Zagros, tem aproximadamente 15 m de altura por 25 m de largura, e fica a 100 m de altura. 

O local é praticamente inacessível, pois a parte lateral da montanha foi removida a fim de tornar a inscrição mais visível após sua finalização. O texto em persa antigo contém 414 linhas em cinco colunas; o elamita tem 593 linhas em oito colunas e o babilônio está disposto em 112 linhas. A inscrição foi ilustrada com um baixo-relevo de Dario em tamanho real, dois servos e 10 figuras de 1 metro representando os povos conquistados; o deus Aúra-Masda flutua sobre a ilustração, abençoando o rei.

Entre outros pioneiros, séculos mais tarde, aparecem coletâneas de biografados pelos romanos Marco Terêncio Varrão (116 - 27 a.C.) e Cornélio Nepos (100 - 25 a.C.).

A evolução do gênero literário prosseguiu com o grego Plutarco (46 - 120 d.C.) – que, ao tornar-se romano adotou o nome Lucius Mestrius Plutarchus –, com a obra Vidas paralelas, que registrou duplas de relevância moral na Grécia e em Roma. Ele escreveu textos de duplas como Teseu e Rômulo (fundador político de Atenas e mitológico de Roma, respectivamente), Demóstenes e Cícero (que consolidaram a oratória) e Alexandre e César (príncipes).

O romano Suetônio – Caius Suetonius Tranquillus (69 - 141 d.C.) – escreveu à época sobre a vida dos poetas Horácio e Virgílio, e "A Vida dos Doze Césares", que trata dos imperadores romanos desde Júlio César até Domiciano. Suetônio tinha acesso à vida dos imperadores, pois se dedicou aos serviços públicos, cuidando de bibliotecas e correspondências imperiais. 

O historiador Públio Cornélio Tácito (55-120 d.C.) destacou-se ao escrever a biografia de seu sogro, um general que conquistou a Britânia durante o reinado de Domiciano, com o título "Sobre a vida e o caratér de Júlio Agrícola". 

O registro de vida de personalidades evoluiu na Idade Média com a aparição das hagiografias, biografias elogiosas de santos, abades, senhores feudais, heróis e mártires. 

Ao fim do período medieval, as contribuições biográficas de Francesco Petrarca, com De viris illustribus, e de Giovanni Boccaccio, autor de De claris mulieribus (Sobre as famosas mulheres) e de De Casibus Virorum Illustrium (Sobre a vida de homens ilustres). 

O interesse da mentalidade renascentista pela personalidade humana, individualmente caracterizada, criou coleções biográficas e dicionários biográficos, que se tornaram populares durante o século XIX até hoje. Tais obras foram favorecidas pela invenção da imprensa e seu número atinge soma bibliográfica espantosa. 

Na Itália destacam-se a Vita di Torquato Tasso, de Giuseppe de Manso, e Galileu Galilei, escrita por Vicenzo Viviani.

Na Inglaterra, The History of King Richard the Third (1557), de Thomas More; Life of Cardinal Wolsey, de Thomas Cavendish, que permaneceu em manuscrito até 1641; e The Life of Sir Thomas More, de William Roper, escrita de 1558 – 1560.

Dominado pelas teses estéticas do Barroco e do Classicismo, o século XVII não assinala exemplos particularmente significativos da evolução do gênero biográfico, menos na Inglaterra. Um primeiro grande passo foi dado por Isaak Walton, que introduziu diversas modificações na técnica do relato biográfico, passando inclusive a incorporar cartas como fonte de informações no próprio texto de suas obras. Entre 1640 e 1678, Walton escreveu magníficas biografias dos chamados metaphysical poets (Donne, Herbert, Hooker, Sanderson). Outro biógrafo de relevo é John Aubrey, autor de Brief lives (1669-1696; Biografias breves); publicadas em 1898.

Na França, dominaram as memórias: Mémoires (1662-1677; publicadas em 1717), do cardeal de Retz. Brantôme escreveu uma série de Biographies (1665) e Jacques de Thou publicou uma Historia mei temporis (1604-1620; História de minha época).

Em Portugal, publicou-se a Crônica do condestável D. Nuno Álvares Pereira, atribuída a Fernão Lopes. O primeiro modelo lusitano de uma biografia de espírito nacional é a Vida de D. João de Castro, de Jacinto Freire de Andrade. A literatura portuguesa inclui bons exemplos do gênero no século passado: Lúcio de Azevedo, autor de uma História do padre Antônio Vieira (1931, 2 volumes) e João Gaspar Simões, que responde por uma combatida mas fundamental Vida e obra de Fernando Pessoa (1950, 2 volumes).

O século XX marca o advento de uma modalidade do gênero até então desconhecida ou pouquíssimo cultivada: a biografia romanceada, na qual o autor recria, ficcionalmente, o material documental e de pesquisa coletado sobre a vida dos biografados. Os mestres dessa nova corrente, que deve muito a Strachey, são Stefan Zweig e Emil Ludwig, na Alemanha, e André Maurois e Romain Rolland, na França.

No Brasil, o gênero biográfico tem seus melhores cultores em Joaquim Nabuco (Um Estadista do império - 1899); Lúcia Miguel Pereira (Machado de Assis, estudo crítico e biográfico – 1936; A Vida de Gonçalves Dias – 1943); Raimundo Magalhães Júnior (Machado de Assis desconhecido – 1955; Rui, o homem e o mito - 1965); Viana Moog (Eça de Queirós e o século XX – 1938).

"No Brasil, as primeiras biografias de destaque surgiram com a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro durante o século XIX, com o relato da vida de brasileiros considerados ilustres e que serviriam como exemplo para os leitores, sendo o primeiro texto dedicado ao poeta José Basílio da Gama. 

"Assim, o desenvolvimento dos textos biográficos evoluiu no Brasil e no mundo e, com ele surgiu uma variação de estilos. Apesar de não se tratar de ficção, para conseguir que os leitores tenham a identificação e interesse pela leitura das obras, a maioria dos autores busca dar ao leitor a impressão de estar diante de um romance. A leitura precisa fluir a partir de narração, descrição e diálogo". Leia a íntegra do texto de Fernanda Domiciano e Kátia Kishi, clicando neste link: http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=96&id=1174

Autobiografia

O portal Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Biografia) chama a atenção para autores consagrados que escreveram suas biografias e deram consistência a esse ramo de atividade literária. 

Exemplos notáveis de autobiografias que o portal apresenta incluem The Words, de Jean Paul Sartre, os quatro volumes da autobiografia de Simone de Beauvoir, e, na Antiguidade clássica, duas obras da natureza confessional: uma de índole filosófica, o Ta eis heautón, do imperador e pensador estoico Marco Aurélio; outra, de tendência política, os Commentarii, de Júlio César, que abrangem o De bello gallico e o De bello civili. 

Segundo o Wikipedia, é no início da Idade Média que surge o primeiro grande modelo de obra autobiográfica, Confessiones (Confissões) de santo Agostinho (século IV), que, por sua introspeção psicológica e antevisão existencialista, permanecem vivas até hoje, tendo exercido profunda influência sobre filósofos como Pascal e Kierkegaard ou escritores como Rousseau. Temos ainda Paulino de Pella (séculos IV – V), que escreveu Eucharisticos de vita sua.

"A literatura italiana dá um notável exemplo de autobiografia no Renascimento com a pouca fidedigna, mas vivíssima, Vita di Benvenuto Cellini, escrita pelo grande escultor em 1558, mas somente publicada quase dois séculos depois, em 1728. As autobiografias de Carlo Goldoni (Mémoires – 1787, escritas originalmente em francês) e a de Carlo Gozzi (Memorie inutili - 1797) são dignas de menção. A literatura russa mostra ensaio autobiográfico com a obra do arcipreste Avvakum, Zhitie protopopa Avvakuma (1673; Vida de protopopo Avvakum), em estilo vigoroso e realista. Na Inglaterra do século XVIII, Gibbon escreveria aquela que é considerada por alguns a melhor das autobiografias lançadas até hoje em língua inglesa: Memoirs of my life and writings, publicadas por sua filha Marie Josephe em 1795. A literatura norte-americana assinala sua contribuição para o gênero através da Autobiography (1766), de Benjamin Franklin.  A obra-prima do gênero autobiográfico são Les Conféssion (1781-1788), de Jean-Jacques Rousseau.", afirma o Wikipedia. 

No Brasil, os historiadores destacam as contribuições de Joaquim Nabuco com o clássico Minha Formação; Graciliano Ramos (Infância – 1945), Oswald de Andrade (Sob as ordens de mamãe – 1954), Helena Morley (Minha vida de menina – 1952), Afonso Arinos de Melo Franco (A Alma do Tempo, Formação e mocidade – 1961, A Escalada – 1952 e Planalto (1968) e Pedro Nava (Baú de ossos – 1972).

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