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7- Memórias Póstumas de Brás Cubas - Capítulos 153 a 160

Atualizado: 21 de Ago de 2019


CAPÍTULO CLIII / O ALIENISTA

Começo a ficar patético e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era

nababo, e acordei com a idéia de ser nababo. Eu gostava, às vezes,

de imaginar esses contrastes de região, estado e credo. Alguns dias

antes tinha pensado na hipótese de uma revolução social, religiosa e

política, que transferisse o arcebispo de Cantuária a simples coletor

de Petrópolis, e fiz longos cálculos para saber se o coletor eliminaria o

arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o coletor, ou que porção de

arcebispo pode jazer num coletor, ou que soma de coletor pode

combinar com um arcebispo, etc. Questões insolúveis,

aparentemente, mas na realidade perfeitamente solúveis, desde que

se atenda que pode haver num arcebispo dois arcebispos, — o da

bula e o outro. Está dito, vou ser nababo.

Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que

olhou para mim com certa cautela e pena, levando a sua bondade a

comunicar-me que eu estava doido. Ri-me a princípio; mas a nobre

convicção do filósofo incutiu-me certo medo. A única objeção contra a

palavra do Quincas Borba é que não me sentia doido, mas não tendo

geralmente os doidos outro conceito de si mesmos, tal objeção ficava

sem valor. E vede se há algum fundamento na crença popular de que

os filósofos são homens alheios às coisas mínimas. No dia seguinte,

mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei

aterrado. Ele, porém, houve-se com a maior delicadeza e habilidade,

despedindo-se tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se

deveras me não achava doido.

— Não, disse ele sorrindo; raros homens terão tanto juízo como o

senhor.

— Então o Quincas Borba enganou-se?

— Redondamente. E depois: — Ao contrário, se é amigo dele... peçolhe

que o distraia... que...

— Justos céus! Parece-lhe?... Um homem de tamanho espírito, um

filósofo!

— Não importa, a loucura entra em todas as casas.

Imaginem a minha aflição. O alienista, vendo o efeito de suas

palavras, reconheceu que eu era amigo do Quincas Borba, e tratou de

diminuir a gravidade da advertência. Observou que podia não ser

nada, e acrescentou até que um grãozinho de sandice, longe de fazer

mal, dava certo pico à vida. Como eu rejeitasse com horror esta

opinião, o alienista sorriu e disse-me uma coisa tão extraordinária,

tão extraordinária, que não merece menos de um capítulo.

CAPÍTULO CLIV / OS NAVIOS DO PIREU

— Há de lembrar-se, disse-me o alienista, daquele famoso maníaco

ateniense, que supunha que todos os navios entrados no Pireu eram

de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não

tivesse, para dormir, a cuba de Diógenes; mas a posse imaginária

dos navios valia por todas as dracmas da Hélade. Ora bem, há em

todos nós um maníaco de Atenas; e quem jurar que não possuiu

alguma vez, mentalmente, dois ou três patachos, pelo menos, pode

crer que jura falso.

— Também o senhor? perguntei-lhe.

— Também eu.

— Também eu?

— Também o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado

esse homem que ali está sacudindo os tapetes à janela.

De fato, era um dos meus criados que batia os tapetes, enquanto nós

falávamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que ele

escancarara as janelas todas deste longo tempo, que alçara as

cortinas, que devassara o mais possível a sala, ricamente alfaiada,

para que a vissem de fora, e concluiu: — Este seu criado tem a

mania do ateniense: crê que os navios são dele; uma hora de ilusão

que lhe dá a maior felicidade da Terra.

CAPÍTULO CLV / REFLEXÃO CORDIAL

— Se o alienista tem razão, disse eu comigo, não haverá muito que

lastimar o Quincas Borba; é uma questão de mais ou de menos.

Contudo, é justo cuidar dele, e evitar que lhe entrem no cérebro

maníacos de outras paragens.

CAPÍTULO CLVI / ORGULHO DA SERVILIDADE

Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu criado. —

Pode-se, por imagem, disse ele, atribuir ao teu criado a mania do

ateniense; mas imagens não são idéias nem observações tomadas à

natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre e

perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da

servilidade. A intenção dele é mostrar que não é criado de qualquer.

— Depois chamou a minha atenção para os cocheiros de casa grande,

mais empertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja

solicitude obedece às variações sociais da freguesia, etc. E concluiu

que era tudo a expressão daquele sentimento delicado e nobre, —

prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é

sublime.

CAPÍTULO CLVII / FASE BRILHANTE

— Sublime és tu, bradei eu, lançando-lhe os braços ao pescoço.

Com efeito, era impossível crer que um homem tão profundo

chegasse à demência; foi o que lhe disse após o meu abraço,

denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a

impressão que lhe fez a denúncia; lembra-me que ele estremeceu e

ficou muito pálido.

Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim,

sem chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliação

oportuna, porque a solidão pesava-me, e a vida era para mim a pior

das fadigas, que é a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui convidado

por ele a filiar-me numa Ordem Terceira; o que eu não fiz sem

consultar o Quincas Borba:

— Vai, se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de

anexar à minha filosofia uma parte dogmática e litúrgica. O

Humanitismo há de ser também uma religião, a do futuro, a única

verdadeira. O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e

as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela

mesma vulgaridade ou fraqueza. O paraíso cristão é um digno êmulo

do paraíso muçulmano; e quanto ao nirvana de Buda não passa de

uma concepção de paralíticos. Verás o que é a religião humanística. A

absorção final, a fase contrativa, é a reconstituição da substância,

não o seu aniquilamento, etc. Vai aonde te chamam; não esqueças,

porém, que és o meu califa.

E vede agora a minha modéstia; filiei-me na Ordem Terceira de ***,

exerci ali alguns cargos, foi essa a fase mais brilhante da minha vida.

Não obstante, calo-me, não digo nada, não conto os meus serviços, o

que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi,

nada, não digo absolutamente nada.

Talvez a economia social pudesse ganhar alguma coisa, se eu

mostrasse como todo e qualquer prêmio estranho vale pouco ao lado

do prêmio subjetivo e imediato; mas seria romper o silêncio que jurei

guardar neste ponto. Demais, os fenômenos da consciência são de

difícil análise; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos

os que a ele se prendessem, e acabava fazendo um capítulo de

psicologia. Afirmo somente que foi a fase mais brilhante da minha

vida. Os quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraça, que

é tão aborrecida como a do gozo, e talvez pior. Mas a alegria que se

dá à alma dos doentes e dos pobres, é recompensa de algum valor; e

não me digam que é negativa, por só recebê-la o obsequiado. Não;

eu recebia-a de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande

que me dava excelente idéia de mim mesmo.

CAPÍTULO CLVIII / DOIS ENCONTROS

No fim de alguns anos, três ou quatro, estava enfarado do ofício, e

deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao

retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capítulo sem dizer que vi

morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcela; e

vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para

distribuir esmolas, achei... Agora é que não são capazes de

adivinhar... achei a flor da moita, Eugênia, a filha de D. Eusébia e do

Vilaça, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste.

Esta, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra

de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita

dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha

algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista.

Cortejou-me e fechou-se no cubículo. Nunca mais a vi; não soube

nada da vida dela, nem se a mãe era morta, nem que desastre a

trouxera a tamanha miséria. Sei que continuava coxa e triste. Foi

com esta impressão profunda que cheguei ao hospital, onde Marcela

entrara na véspera, e onde a vi expirar meia hora depois, feia,

magra, decrépita...

CAPÍTULO CLIX / SEMIDEMÊNCIA

Compreendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o

Quincas Borba partira seis meses antes para Minas Gerais, e levou

consigo a melhor das filosofias. Voltou quatro meses depois, e

entrou-me em casa, certa manhã, quase no estado em que eu o vira

no Passeio Público. A diferença é que o olhar era outro. Vinha

demente. Contou-me que, para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo,

queimara o manuscrito todo e ia recomeçá-lo. A parte dogmática

ficava completa, embora não escrita; era a verdadeira religião do

futuro.

— Juras por Humanitas? perguntou-me.

— Sabes que sim.

A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda a

cruel verdade. Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que

estava louco, e esse resto de consciência, como uma frouxa

lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situação.

Sabia-o, e não se irritava contra o mal; ao contrário, dizia-me que

era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava consigo

mesmo. Recitava-me longos capítulos do livro, e antífonas, e litanias

espirituais; chegou até a reproduzir uma dança sacra que inventara

para as cerimônias do Humanitismo. A graça lúgubre com que ele

levantava e sacudia as pernas era singularmente fantástica. Outras

vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns olhos em

que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente da razão,

triste como uma lágrima...

Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo

sempre que a dor era uma ilusão, e que Pangloss, o caluniado

Pangloss, não era tão tolo como o supôs Voltaire.

CAPÍTULO CLX / DAS NEGATIVAS

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos

narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção

do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia

que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os

homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e

direta inspiração do Céu. O caso determinou o contrário; e aí vos

ficais eternamente hipocondríacos.

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade

do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o

casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa

fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não

padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas

Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará

que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite

com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do

mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira

negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti

a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.


FIM


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