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5 - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Capítulos 85 a 116

Atualizado: 21 de Ago de 2019

CAPÍTULO LXXXV / O CIMO DA MONTANHA

Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade. Entrei a

amar Virgília com muito mais ardor, depois que estive a pique de a

perder, e a mesma coisa lhe aconteceu a ela. Assim, a presidência

não fez mais do que avivar a afeição primitiva; foi a droga com que

tornamos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado também. Nos

primeiros dias, depois daquele incidente, folgávamos de imaginar a

dor da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de

outro, à proporção que o mar, como uma toalha elástica, se fosse

dilatando entre nós; e, semelhantes às crianças, que se achegam ao

regaço das mães, para fugir a uma simples careta, fugíamos do

suposto perigo, apertando-nos com abraços.

— Minha boa Virgília!

— Meu amor!

— Tu és minha, não?

— Tua, tua...

E assim reatamos o fio da aventura como a sultana Scheherazade o

dos seus contos. Esse foi, cuido eu, o ponto máximo do nosso amor,

o cimo da montanha, donde por algum tempo divisamos os vale de

leste e de oeste, e por cima de nós o céu tranqüilo e azul. Repousado

esse tempo, começamos a descer a encosta, com as mãos presas ou

soltas, mas a descer, a descer...

CAPÍTULO LXXXVI / O MISTÉRIO

Serra abaixo, como eu a visse um pouco diferente, não sei se abatida

ou outra coisa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de

enfado, de mal-estar, de fadiga; ateimei, ela disse-me que... Um

fluido sutil percorreu todo o meu corpo: sensação forte, rápida,

singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das

mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma

delicadeza de zéfiro e uma gravidade de Abraão. Ela estremeceu,

colheu-me a cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois

afagou-me com um gesto maternal... Eis aí um mistério; deixemos

ao leitor o tempo de decifrar este mistério.

CAPÍTULO LXXXVII / GEOLOGIA

Sucedeu por esse tempo um desastre; a morte do Viegas. O Viegas

passou aí de relance, com os seus setenta anos, abafados de asma,

desconjuntados de reumatismo, e uma lesão de coração por quebra.

Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgília nutria

grandes esperanças em que esse velho parente, avaro como um

sepulcro, lhe amparasse o futuro do filho, com algum legado; e, se o

marido tinha iguais pensamentos, encobria-os ou estrangulava-os.

Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade

fundamental, uma camada de rocha, que resistia ao comércio dos

homens. As outras, as camadas de cima, terra solta e areia, levoulhas

a vida, que é um enxurro perpétuo. Se o leitor ainda se lembra

do capítulo XXIII, observará que é agora a segunda vez que eu

comparo a vida a um enxurro; mas também há de reparar que desta

vez acrescento-lhe um adjetivo — perpétuo. E Deus sabe a força de

um adjetivo, principalmente em países novos e cálidos.

O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves, e

provavelmente a do cavalheiro, que me está lendo. Sim, essas

camadas de caráter, que a vida altera, conserva ou dissolve,

conforme a resistência delas, essas camadas mereceriam um

capítulo, que eu não escrevo, por não alongar a narração. Digo

apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um

certo Jacó Medeiros ou Jacó Valadares, não me recorda bem o nome.

Talvez fosse Jacó Rodrigues; em suma, Jacó. Era a probidade em

pessoa; podia ser rico, violentando um pequenino escrúpulo, e não

quis; deixou ir pelas mãos fora nada menos de uns quatrocentos

contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava a ser miúda e

cansativa. Um dia, como nos achássemos, a sós, em casa dele, em

boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um sujeito

enfadonho. Jacó mandou dizer que não estava em casa.

— Não pega, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.

E, com efeito, era o Dr. B., que apareceu logo à porta da sala. Jacó

foi recebê-lo, afirmando que cuidava ser outra pessoa, e não ele, e

acrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos rendeu

hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque Jacó tirou o

relógio; o Dr. B. perguntou-lhe então se ia sair.

— Com minha mulher, disse Jacó.

Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao

Jacó que ele acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas

horas: a primeira, negando-se, a segunda, alegrando-se com a

presença do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta,

acrescentando que com a mulher. Jacó refletiu um instante, depois

confessou a justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo

que a veracidade absoluta era incompatível com um estado social

adiantado, e que a paz das cidades só se podia obter à custa de

embaçadelas recíprocas... Ah! lembra-me agora: chamava-se Jacó

Tavares.

CAPÍTULO LXXXVIII / O ENFERMO

Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina, com os mais

elementares argumentos; mas ele estava tão vexado do meu reparo,

que resistiu até o fim, mostrando certo calor fictício, talvez para

atordoar a consciência.

O caso de Virgília tinha alguma gravidade mais. Ela era menos

escrupulosa que o marido: manifestava claramente as esperanças

que trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortesias,

atenções e afagos que poderiam render, pelo menos, um codicilo.

Propriamente, adulava-o; mas eu observei que a adulação das

mulheres não é a mesma coisa que a dos homens. Esta orça pela

servilidade; a outra confunde-se com a afeição. As formas

graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza física dão à

ação lisonjeira da mulher, uma cor local, um aspecto legítimo. Não

importa a idade do adulado; a mulher há de ter sempre para ele uns

ares de mãe ou de irmã, — ou ainda de enfermeira, outro ofício

feminil, em que o mais hábil dos homens carecerá sempre de um

quid, um fluido, alguma coisa.

Era o que eu pensava comigo, quando Virgília se desfazia toda em

afagos ao velho parente. Ela ia recebê-lo à porta, falando e rindo,

tirava-lhe o chapéu e a bengala, dava-lhe o braço e levava-o a uma

cadeira, ou à cadeira, porque havia lá em casa a “cadeira do Viegas”,

obra especial, conchegada, feita para gente enferma ou anciã. Ia

fechar a janela próxima, se havia alguma brisa, ou abri-la, se estava

calor, mas com cuidado, combinando de modo que lhe não desse um

golpe de ar.

— Então? Hoje está mais fortezinho...

— Qual! Passei mal a noite: o diabo da asma não me deixa.

E bufava o homem, repousando a pouco e pouco do cansaço da

entrada e da subida, não do caminho, porque ia sempre de sege. Ao

lado, um pouco mais para a frente, sentava-se Virgília, numa

banquinha, com as mãos nos joelhos do enfermo. Entretanto, o

nhonhô chegava à sala, sem os pulos do costume, mas discreto,

meigo, sério. Viegas gostava muito dele.

— Vem cá, nhonhô, dizia-lhe; e a custo introduzia a mão na ampla

algibeira, tirava uma caixinha de pastilhas, metia uma na boca e

dava outra ao pequeno. Pastilhas antiasmáticas. O pequeno dizia que

eram muito boas.

Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar

damas, Virgília cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a

mover as pedras com a mão frouxa e tarda. Outras vezes, desciam a

passear na chácara, dando-lhe ela o braço, que ele nem sempre

aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma légua. Iam,

sentavam-se tornavam a ir, a falar de coisas várias, ora de um

negócio de família, ora de uma bisbilhotice de sala, ora enfim de uma

casa que ele meditava construir, para residência própria, casa de

feitio moderno, porque a dele era das antigas, contemporânea de elrei

D. João VI, à maneira de algumas que ainda hoje (creio eu) se

podem ver no bairro de São Cristóvão, com as suas grossas colunas

na frente. Parecia-lhe que o casarão em que morava podia ser

substituído, e já tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama.

Ah! então sim, então é que Virgília chegaria a ver o que era um velho

de gosto.

Falava, como se pode supor, lentamente e a custo, intervalado de

uma arfagem incômoda para ele e para os outros. De quando em

quando, vinha um acesso de tosse; curvo, gemendo, levava o lenço à

boca, e investigava-o; passado o acesso, tornava ao plano da casa,

que devia ter tais e tais quartos, um terraço, cachoeira, um primor.

CAPÍTULO LXXXIX / IN EXTREMIS

— Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas, disse-me ela uma

vez. Coitado! não tem ninguém...

Viegas caíra na cama, definitivamente; a filha, casada, adoecera

justamente agora, e não podia fazer-lhe companhia. Virgília ia lá de

quando em quando. Eu aproveitei a circunstância para passar todo

aquele dia ao pé dela. Eram duas horas da tarde quando cheguei.

Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito; no intervalo

dos acessos debatia o preço de uma casa, com um sujeito magro. O

sujeito oferecia trinta contos. Viegas exigia quarenta. O comprador

instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro, mas

Viegas não cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois

mais dois, depois mais três, enfim teve um forte acesso, que lhe

tolheu a fala durante quinze minutos. O comprador acarinhou-o

muito, arranjou-lhe os travesseiros, ofereceu-lhe trinta e seis contos.

— Nunca! gemeu o enfermo.

Mandou buscar um maço de papéis à escrivaninha; não tendo forças

para tirar a fita de borracha que prendia os papéis, pediu-me que os

deslaçasse: fi-lo. Eram as contas das despesas com a construção da

casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do papel

da sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes;

contas das ferragens; custo do terreno. Ele abria-as, uma por uma,

com a mão trêmula, e pedia-me que as lesse, e eu lia-as.

— Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a peça. Dobradiças

francesas... Veja, é de graça, concluiu ele depois de lida a última

conta.

— Pois bem... mas...

— Quarenta contos; não lhe dou por menos. Só os juros... faça a

conta dos juros...

Vinham tossidas estas palavras, às golfadas, às sílabas, como se

fossem migalhas de um pulmão desfeito. Nas órbitas fundas rolavam

os olhos lampejantes, que me faziam lembrar a lamparina da

madrugada. Sob o lençol desenhava-se a estrutura óssea do corpo,

pontudo em dois lugares, nos joelhos e nos pés; a pele amarelada,

bamba, rugosa, revestia apenas a caveira de um rosto sem

expressão; uma carapuça de algodão branco cobria-lhe o crânio

rapado pelo tempo.

— Então? disse o sujeito magro.

Fiz-lhe sinal para que não insistisse, e ele calou-se por alguns

instantes. O doente ficou a olhar para o teto, calado, a arfar muito:

Virgília empalideceu, levantou-se, foi até à janela. Suspeitara a morte

e tinha medo. Eu procurei falar de outras coisas. O sujeito magro

contou uma anedota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.

— Trinta e oito contos, disse ele.

— Ahn?... gemeu o enfermo.

O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiua

fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma

coisa, se queria tomar um cálice de vinho.

— Não... não... quar... quaren... quar... quar...

Teve um acesso de tosse, e foi o último; daí a pouco expirava ele,

com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois

a disposição em que estava de oferecer os quarenta contos; mas era

tarde.

CAPÍTULO XC / O VELHO COLÓQUIO DE ADÃO E CAIM

Nada. Nenhuma lembrança testamentária, uma pastilha que fosse,

com que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido. Nada.

Virgília travou raivosa esse malogro, e disse-mo com certa cautela,

não pela coisa em si, senão porque entendia com o filho, de quem

sabia que eu não gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que não

devia pensar mais em semelhante negócio. O melhor de tudo era

esquecer o defunto, um lorpa, um cainho sem nome, e tratar de

coisas alegres; o nosso filho, por exemplo...

Lá me escapou a decifração do mistério, esse doce mistério de

algumas semanas antes, quando Virgília me pareceu um pouco

diferente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a

minha preocupação exclusiva daquele tempo. Olhos do mundo, zelos

do marido, morte do Viegas, nada me interessava por então, nem

conflitos políticos, nem revoluções, nem terremotos, nem nada. Eu só

pensava naquele embrião anônimo, de obscura paternidade, e uma

voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas

palavras, com certa voluptuosidade indefinível, e não sei que

assomos de orgulho. Sentia-me homem.

O melhor é que conversávamos os dois, o embrião e eu, falávamos

de coisas presentes e futuras. O maroto amava-me, era um pelintra

gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as mãozinhas gordas, ou

então traçava a beca de bacharel, porque ele havia de ser bacharel e

fazia um discurso na Câmara dos Deputados. E o pai a ouvi-lo de

uma tribuna, com os olhos rasos de lágrimas. De bacharel passava

outra vez à escola, pequenino, lousa e livros debaixo do braço, ou

então caía no berço para tornar a erguer-se homem. Em vão buscava

fixar no espírito uma idade, uma atitude: esse embrião tinha a meus

olhos todos os tamanhos e gestos: ele mamava, ele escrevia, ele

valsava, ele era o interminável nos limites de um quarto de hora, —

baby e deputado, colegial e pintalegrete. Às vezes, ao pé de Virgília,

esquecia-me dela e de tudo; Virgília sacudia-me, reprochava-me o

silêncio; dizia que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava

em diálogo com o embrião; era o velho colóquio de Adão e Caim,

uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mistério e o

mistério.

CAPÍTULO XCI / UMA CARTA EXTRAORDINÁRIA

Por esse tempo recebi uma carta extraordinária, acompanhada de um

objeto não menos extraordinário. Eis o que a carta dizia:

“Meu caro Brás Cubas,

Há tempos, no Passeio Público, tomei-lhe de

empréstimo um relógio. Tenho a satisfação de restituirlho

com esta carta. A diferença é que não é o mesmo,

porém outro, não digo superior, mas igual ao primeiro.

Que voulez-vous, monseigneur? — como dizia Fígaro,

— c'est la misère. Muitas coisas se deram depois do

nosso encontro; irei contá-las pelo miúdo, se me não

fechar a porta. Saiba que já não trago aquelas botas

caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas

abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu

degrau da escada de São Francisco; finalmente,

almoço.

Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe

um trabalho, fruto de longo estudo, um novo sistema

de filosofia, que não só explica e descreve a origem e a

consumação das coisas, como faz dar um grande passo

adiante de Zenon e Sêneca, cujo estoicismo era um

verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha receita

moral. É singularmente espantoso esse meu sistema;

retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a

felicidade, e enche de imensa glória o nosso país.

Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas, princípio das

coisas. Minha primeira idéia revelava uma grande

enfatuação: era chamar-lhe borbismo, de Borba;

denominação vaidosa, além de rude e molesta. E com

certeza exprimia menos. Verá, meu caro Brás Cubas,

verá que é deveras um monumento; e se alguma coisa

há que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida,

é o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a

felicidade. Ei-las na minha mão essas duas esquivas;

após tantos séculos de lutas, pesquisas, descobertas,

sistemas e quedas, ei-las nas mãos do homem. Até

breve, meu caro Brás Cubas. Saudades do

Vel

ho

a

mi

goJ

OA

QUI

M

B

ORBA

D

OS

SA

NT

OS.

Li esta carta sem entendê-la. Vinha com ela uma boceta contendo um

bonito relógio com as minhas iniciais gravadas, e esta frase:

Lembrança do velho Quincas. Voltei à carta, reli-a com pausa, com

atenção. A restituição do relógio excluía toda a idéia de burla; a

lucidez, a serenidade, a convicção, — um pouco jactanciosa, é certo,

— pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas

Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastança

devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; há coisas que se

não podem reaver integralmente; mas enfim a regeneração não era

impossível. Guardei a carta e o relógio, e esperei a filosofia.

CAPÍTULO XCII / UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO

Já agora acabo com as coisas extraordinárias. Vinha de guardar a

carta e o relógio, quando me procurou um homem magro e meão,

com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O portador

era casado com uma irmã do Cotrim, chegara poucos dias antes do

Norte, chamava-se Damasceno, e fizera a revolução de 1831. Foi ele

mesmo que me disse isto, no espaço de cinco minutos. Saíra do Rio

de Janeiro, por desacordo com o Regente, que era um asno, pouco

menos asno do que os ministros que serviram com ele. De resto, a

revolução estava outra vez às portas. Neste ponto, conquanto

trouxesse as idéias políticas um pouco baralhadas, consegui organizar

e formular o governo de suas preferências: era um despotismo

temperado, — não por cantigas, como dizem alhures, — mas por

penachos da guarda nacional. Só não pude alcançar se ele queria o

despotismo de um, de três, de trinta ou de trezentos. Opinava por

várias coisas, entre outras, o desenvolvimento do tráfico dos

africanos e a expulsão dos ingleses. Gostava muito de teatro; logo

que chegou foi ao Teatro de São Pedro, onde viu um drama soberbo,

a Maria Joana, e uma comédia muito interessante, Kettly, ou a volta

à Suíça. Também gostara muito da Deperini, na Safo, ou na Ana

Bolena, não se lembrava bem. Mas a Candiani! sim, senhor, era

papa-fina. Agora queria ouvir o Ernani, que a filha dele cantava em

casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami... — E dizia isto levantandose

e cantarolando a meia voz. — No Norte essas coisas chegavam

como um eco. A filha morria por ouvir todas as óperas. Tinha uma

voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! ele estava

ansioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a cidade toda,

com umas saudades... Palavra! em alguns lugares teve vontade de

chorar. Mas não embarcaria mais. Enjoara muito a bordo, como todos

os outros passageiros, exceto um inglês... Que os levasse o diabo os

ingleses! Isto não ficava direito sem irem todos eles barra fora. Que é

que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele encontrasse algumas

pessoas de boa vontade, era obra de uma noite a expulsão de tais

godemes... Graças a Deus, tinha patriotismo, — e batia no peito, — o

que não admirava porque era de família; descendia de um antigo

capitão-mor muito patriota. Sim, não era nenhum pé-rapado. Viesse

a ocasião, e ele havia de mostrar de que pau era a canoa... Mas

fazia-se tarde, ia dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me

esperava para maior palestra. — Levei-o até à porta da sala; ele

parou dizendo que simpatizava muito comigo. Quando casara, estava

eu na Europa. Conheceu meu pai, um homem às direitas, com quem

dançara num célebre baile da Praia Grande... Coisas! coisas! Falaria

depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu;

fechei-lhe a porta...

CAPÍTULO XCIII / O JANTAR

Que suplício que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé

da filha do Damasceno, uma D. Eulália, ou mais familiarmente Nhãloló,

moça graciosa, um tanto acanhada a princípio, mas só a

princípio. Faltava-lhe elegância, mas compensava-a com os olhos,

que eram soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de

mim, exceto quando desciam ao prato; mas Nhã-loló comia tão

pouco, que quase não olhava para o prato. De noite cantou; a voz

era como dizia o pai, “muito mimosa”. Não obstante, esquivei-me.

Sabina veio até à porta, e perguntou-me que tal achara a filha do

Damasceno.

— Assim, assim.

— Muito simpática, não é? acudiu ela; falta-lhe um pouco mais de

corte. Mas que coração! é uma pérola. Bem boa noiva para você.

— Não gosto de pérolas.

— Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando

estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer

não, há de casar com Nhã-loló.

E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma

pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta. Santo Deus! seria

esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco desconsolado com a

idéia, mas uma voz misteriosa chamava-me à casa do Lobo Neves;

disse adeus a Sabina e às suas ameaças.

CAPÍTULO XCIV / A CAUSA SECRETA

— Como está a minha querida mamãe? A esta palavra, Virgília

amuou-se, como sempre. Estava ao canto de uma janela, sozinha, a

olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas quando lhe falei no

nosso filho amuou-se. Não gostava de semelhante alusão,

aborreciam-lhe as minhas antecipadas carícias paternais. Eu, para

quem ela era já uma pessoa sagrada, uma âmbula divina, deixava-a

estar quieta. Supus a princípio que o embrião, esse perfil do

incógnito, projetando-se na nossa aventura, lhe restituíra a

consciência do mal. Enganava-me. Nunca Virgília me parecera mais

expansiva, mais sem reservas, menos preocupada dos outros e do

marido. Não eram remorsos. Imaginei também que a concepção seria

um puro invento, um modo de prender-me a ela, recurso sem longa

eficácia, que talvez começava de oprimi-la. Não era absurda esta

hipótese; a minha doce Virgília mentia às vezes, com tanta graça!

Naquela noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e

vexame da gravidez. Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro

filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte,

dava-lhe já imaginariamente os calafrios do patíbulo. Quanto ao

vexame, complicava-se ainda da forçada privação de certos hábitos

da vida elegante. Com certeza, era isso mesmo; dei-lho a entender,

repreendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos de pai.

Virgília fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um jeito

incrédulo.

CAPÍTULO XCV / FLORES DE ANTANHO

Onde estão elas, as flores de antanho? Uma tarde, após algumas

semanas de gestação, esboroou-se todo o edifício das minhas

quimeras paternais. Foi-se o embrião, naquele ponto em que se não

distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a notícia por boca do Lobo

Neves, que me deixou na sala e acompanhou o médico à alcova da

frustrada mãe. Eu encostei-me à janela, a olhar para a chácara, onde

verdejavam as laranjeiras sem flores. Onde iam elas as flores de

antanho?

CAPÍTULO XCVI / A CARTA ANÔNIMA

Senti tocar-me no ombro; era Lobo Neves. Encaramo-nos alguns

instantes, mudos, inconsoláveis. Indaguei de Virgília, depois ficamos

a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe

uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e fechou-a com a mão

trêmula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quisesse atirar-se

sobre mim; mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é

que durante os dias seguintes recebeu-me frio e taciturno. Enfim,

Virgília contou-me tudo, daí a dias na Gamboa.

O marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu. Era

anônima e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo,

das nossas entrevistas externas; limitava-se a precavê-lo contra a

minha intimidade, e acrescentava que a suspeita era pública. Virgília

leu a carta e disse com indignação que era uma calúnia infame.

— Calúnia? perguntou Lobo Neves.

— Infame.

O marido respirou; mas, tornando à carta, parece que cada palavra

dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo, cada letra bradava

contra a indignação da mulher. Esse homem, aliás intrépido, era

agora a mais frágil das criaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou,

ao longe, o famoso olho da opinião, a fitá-lo sarcasticamente, com

um ar de pulha; talvez uma boca invisível lhe repetiu ao ouvido as

chufas que ele escutara ou dissera outrora. Instou com a mulher que

lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgília

compreendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a

insistência, jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e

cortesia. A carta havia de ser de algum namorado sem-ventura. E

citou alguns, — um que a galanteara francamente, durante três

semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros.

Citava-os pelo nome, com circunstâncias, estudando os olhos do

marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem à calúnia,

tratar-me-ia de maneira que eu não voltaria lá.

Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo acréscimo de dissimulação

que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me

inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranqüilidade moral de

Virgília, pela falta de comoção, de susto, de saudades, e até de

remorsos. Virgília notou a minha preocupação, levantou-me a cabeça,

porque eu olhava então para o soalho, e disse-me com certa

amargura:

— Você não merece os sacrifícios que lhe faço.

Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de

desespero e terror daria à nossa situação o sabor cáustico dos

primeiros dias; mas se lho dissesse, não é impossível que ela

chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e

terror. Não lhe disse nada. Ela batia nervosamente com a ponta do

pé no chão; aproximei-me e beijei-a na testa. Virgília recuou, como

se fosse um beijo de defunto.

CAPÍTULO XCVII / ENTRE A BOCA E A TESTA

Sinto que o leitor estremeceu, — ou devia estremecer. Naturalmente

a última palavra sugeriu-lhe três ou quatro reflexões. Veja bem o

quadro: numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam há

muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na

testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contato de uma boca de

cadáver. Há aí, no breve intervalo, entre a boca e a testa, antes do

beijo e depois do beijo, há aí largo espaço para muita coisa, — a

contração de um ressentimento, — a ruga da desconfiança, — ou

enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade...

CAPÍTULO XCVIII / SUPRIMIDO

Separamo-nos alegremente. Jantei reconciliado com a situação. A

carta anônima restituía à nossa aventura o sal do mistério e a

pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que Virgília não perdesse

naquela crise a posse de si mesma. De noite fui ao teatro de São

Pedro; representava-se uma grande peça, em que a Estela arrancava

lágrimas. Entro; corro os olhos pelos camarotes; vejo em um deles

Damasceno e a família. Trajava a filha com outra elegância e certo

apuro, coisa difícil de explicar, porque o pai ganhava apenas o

necessário para endividar-se; e daí, talvez fosse por isso mesmo.

No intervalo fui visitá-los. Damasceno recebeu-me com muitas

palavras, a mulher com muitos sorrisos. Quanto a Nhã-loló, não tirou

mais os olhos de mim. Parecia-me agora mais bonita que no dia do

jantar. Achei-lhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas

terrenas: — expressão vaga, e condigna de um capítulo em que tudo

há de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me senti

mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino, um

vestido que me dava cócegas de Tartufo. Ao contemplá-lo, cobrindo

casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a

saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição

necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual,

dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo, tenderia

a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o

vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativaas,

reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civilização.

Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos!

Estou com vontade de suprimir este capítulo. O declive é perigoso.

Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não as tuas, leitor

pacato. Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma

sensação dupla e indefinível. Ela exprimia inteiramente a dualidade

de Pascal, l'ange et la bête, com a diferença que o jansenista não

admitia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas aí

estavam bem juntinhas, — l'ange, que dizia algumas coisas do Céu,

— e la bête, que... Não; decididamente suprimo este capítulo.

CAPÍTULO XCIX / NA PLATÉIA

Na platéia achei Lobo Neves, de conversa com alguns amigos,

falamos por alto, a frio, constrangidos um e outro. Mas no intervalo

seguinte, prestes a levantar o pano, encontramo-nos num dos

corredores, em que não havia ninguém. Ele veio a mim, com muita

afabilidade e riso, puxou-me a um dos óculos do teatro, e falamos

muito, principalmente ele, que parecia o mais tranqüilo dos homens.

Cheguei a perguntar-lhe pela mulher; respondeu que estava boa,

mas torceu logo a conversação para assuntos gerais, expansivo,

quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferença; eu fujo ao

Damasceno que me espreita ali da porta do camarote.

Não ouvi nada do seguinte ato, nem as palavras dos atores, nem as

palmas do público. Reclinado na cadeira, apanhava de memória os

retalhos da conversação do Lobo Neves, refazia as maneiras dele, e

concluía que era muito melhor a nova situação. Bastava-nos a

Gamboa. A freqüência da outra casa aguçaria as invejas.

Rigorosamente podíamos dispensar-nos de falar todos os dias; era

até melhor, metia a saudade de permeio nos amores. Ao demais, eu

galgara os quarenta anos, e não era nada, nem simples eleitor de

paróquia. Urgia fazer alguma coisa, ainda por amor de Virgília, que

havia de ufanar-se quando visse luzir o meu nome... Creio que nessa

ocasião houve grandes aplausos, mas não juro; eu pensava em outra

coisa.

Multidão, cujo amor cobicei até à morte, era assim que eu me

vingava às vezes de ti; deixava burburinhar em volta do meu corpo a

gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de Ésquilo fazia aos

seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua

frivolidade, da tua indiferença, ou da tua agitação? Frágeis cadeias,

amiga minha; eu rompia-as de um gesto de Gulliver. Vulgar coisa é ir

considerar no ermo. O voluptuoso, o esquisito, é insular-se o homem

no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões,

decretar-se alheado, inacessível, ausente. O mais que podem dizer,

quando ele torna a si, — isto é, quando torna aos outros, — é que

baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e

recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa

da nossa liberdade espiritual? Vive Deus! eis um bom fecho de

capítulo.

CAPÍTULO C / O CASO PROVÁVEL

Se esse mundo não fosse uma região de espíritos desatentos, era

escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis, quando as

possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me à admissão da

probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitui o presente

capítulo, cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o

estudo dos fenômenos sociais. Segundo parece, e não é improvável,

existe entre os fatos da vida pública e os da vida particular uma certa

ação recíproca, regular, e talvez periódica, — ou para usar de uma

imagem, há alguma coisa semelhante às marés da Praia do Flamengo

e de outras igualmente marulhosas. Com efeito, quando a onda

investe a praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas essa mesma

água torna ao mar, com variável força, e vai engrossar a onda que há

de vir, e que terá de tornar como a primeira. Esta é a imagem;

vejamos a aplicação.

Deixei dito noutra página que o Lobo Neves, nomeado presidente de

província, recusou a nomeação por motivo da data do decreto que

era 13; ato grave, cuja conseqüência foi separar do ministério o

marido de Virgília. Assim, o fato particular da ojeriza de um número

produziu o fenômeno da dissidência política. Resta ver como, tempos

depois, um ato político determinou na vida particular uma cessação

de movimento. Não convindo ao método deste livro descrever

imediatamente esse outro fenômeno, limito-me a dizer por ora que o

Lobo Neves, quatro meses depois de nosso encontro no teatro,

reconciliou-se com o ministério; fato que o leitor não deve perder de

vista, se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento.

CAPÍTULO CI / A REVOLUÇAO DÁLMATA

Foi Virgília quem me deu notícia da viravolta política do marido, certa

manhã de outubro, entre onze e meio-dia; falou-me de reuniões, de

conversas, de um discurso...

— De maneira, que desta vez fica você baronesa, interrompi eu.

Ela derreou os cantos da boca, e moveu a cabeça a um e outro lado;

mas esse gesto de indiferença era desmentido por alguma coisa

menos definível, menos clara, uma expressão de gosto e de

esperança. Não sei por que, imaginei que a carta imperial da

nomeação podia atraí-la à virtude, não digo pela virtude em si

mesma, mas por gratidão ao marido. Que ela amava cordialmente a

nobreza. Um dos maiores desgostos de nossa vida foi o aparecimento

de certo pelintra de legação, — da legação da Dalmácia,

suponhamos, — o Conde B. V., que a namorou durante três meses.

Esse homem, vero fidalgo de raça, transtornara um pouco a cabeça

de Virgília, que, além do mais, possuía a vocação diplomática. Não

chego a alcançar o que seria de mim, se não rebentasse na Dalmácia

uma revolução, que derrocou o governo e purificou as embaixadas.

Foi sangrenta a revolução, dolorosa, formidável; os jornais, a cada

navio que chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o

sangue, contavam as cabeças; toda a gente fremia de indignação e

piedade... Eu não; eu abençoava interiormente essa tragédia, que me

tirara uma pedrinha do sapato. E depois a Dalmácia era tão longe!

CAPÍTULO CII / DE REPOUSO

Mas este mesmo homem, que se alegrou com a partida do outro,

praticou daí a tempos... Não, não hei de contá-lo nesta página; fique

esse capítulo para repouso do meu vexame. Uma ação grosseira,

baixa, sem explicação possível... Repito, não contarei o caso nesta

página.

CAPÍTULO CIII / DISTRAÇÃO

— Não, senhor doutor, isto não se faz. Perdoe-me, isto não se faz.

Tinha razão D. Plácida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais

tarde ao lugar em que o espera a sua dama. Entrei esbaforido;

Virgília tinha ido embora. D. Plácida contou-me que ela esperara

muito, que se irritara, que chorara, que jurara votar-me ao desprezo,

e outras mais coisas que a nossa caseira dizia com lágrimas na voz,

pedindo-me que não desamparasse Iaiá, que era ser muito injusto

com uma moça que me sacrificara tudo. Expliquei-lhe então que um

equívoco... E não era; cuido que foi simples distração. Um dito, uma

conversa, uma anedota, qualquer coisa; simples distração.

Coitada de D. Plácida! Estava aflita deveras. Andava de um lado para

outro, abanando a cabeça, suspirando com estrépito, espiando pela

rótula. Coitada de D. Plácida! Com que arte conchegava as roupas,

bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que

imaginação fértil em tornar as horas mais aprazíveis e breves! Flores,

doces, — os bons doces de outros dias, — e muito riso, muito afago,

riso e afago que cresciam com o tempo, como se ela quisesse fixar a

nossa aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a

nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e

outro referia suspiros e saudades que não presenciara; nada, nem a

calúnia, porque uma vez chegou a atribuir-me uma paixão nova. —

Você sabe que não posso gostar de outra mulher, foi a minha

resposta, quando Virgília me falou em semelhante coisa. E esta só

palavra, sem nenhum protesto ou admoestação, dissipou o aleive de

D. Plácida, que ficou triste.

— Está bem, disse-lhe eu, depois de um quarto de hora; Virgília há

de reconhecer que não tive culpa nenhuma... Quer você levar-lhe

uma carta agora mesmo?

— Ela há de estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu não desejo a morte

de ninguém; mas, se o senhor doutor algum dia chegar a casar com

Iaiá, então sim, é que há de ver o anjo que ela é!

Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recomendo

este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para

responder, ou ainda às que recearem encarar a pupila de outros

olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos

Lusíadas, outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu atenhome

ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.

Três dias depois, estava tudo explicado. Suponho que Virgília ficou

um pouco admirada, quando lhe pedi desculpas das lágrimas que

derramara naquela triste ocasião. Nem me lembra se interiormente

as atribuí a D. Plácida. Com efeito, podia acontecer que D. Plácida

chorasse, ao vê-la desapontada, e, por um fenômeno da visão, as

lágrimas que tinha nos próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos

de Virgília. Fosse como fosse, tudo estava explicado, mas não

perdoado, e menos ainda esquecido. Virgília dizia-me uma porção de

coisas duras, ameaçava-me com a separação, enfim louvava o

marido. Esse sim, era um homem digno, muito superior a mim,

delicado, um primor de cortesia e afeição; é o que ela dizia, enquanto

eu, sentado, com os braços fincados nos joelhos, olhava para o chão,

onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé. Pobre

mosca! pobre formiga!

— Mas você não diz nada, nada? perguntou Virgília, parando diante

de mim.

— Que hei de dizer? Já expliquei tudo; você teima em zangar-se; que

hei de dizer? Sabe que me parece? Parece-me que você está

enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...

— Justamente!

Foi dali pôr o chapéu, com a mão trêmula, raivosa... — Adeus, D.

Plácida, bradou ela para dentro. Depois foi até à porta, correu o

fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura. — Está bom, está bom, disselhe.

Virgília ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse,

que esquecesse; ela afastou-se da porta e foi cair no canapé. Senteime

ao pé dela, disse-lhe muitas coisas meigas, outras humildes,

outras graciosas. Não afirmo se os nossos lábios chegaram à

distância de um fio de cambraia ou ainda menos; é matéria

controversa. Lembra-me, sim, que na agitação caiu um brinco de

Virgília, que eu inclinei-me a apanhá-lo, e que a mosca de há pouco

trepou ao brinco, levando sempre a formiga no pé. Então eu, com a

delicadeza nativa de um homem do nosso século, pus na palma da

mão aquele casal de mortificados; calculei toda a distância que ia da

minha mão ao planeta Saturno, e perguntei a mim mesmo que

interesse podia haver num episódio tão mofino. Se concluis daí que

eu era um bárbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virgília,

a fim de separar os dois insetos; mas a mosca farejou a minha

intenção, abriu as asas e foi-se embora. Pobre mosca! pobre formiga!

E Deus viu que isto era bom, como se diz na Escritura.

CAPÍTULO CIV / ERA ELE!

Restituí o grampo a Virgília, que o repregou nos cabelos, e preparouse

para sair. Era tarde; tinham dado três horas. Tudo estava

esquecido e perdoado. D. Plácida, que espreitava a ocasião idônea

para a saída, fecha subitamente a janela e exclama:

— Virgem Nossa Senhora! aí vem o marido de Iaiá!

O momento de terror foi curto, mas completo. Virgília fez-se da cor

das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; D. Plácida, que

fechara a rótula, queria fechar também a porta de dentro; eu dispusme

a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virgília

tornou a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Plácida que

voltasse à janela; a confidente obedeceu.

Era ele. D. Plácida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de

pasmo: — O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre,

faça favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar, não veio

por outra coisa... Apareça, Iaiá.

Virgília, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitavaos

pelo buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente,

pálido, frio, quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um

olhar em volta da sala.

— Que é isto? exclamou Virgília. Você por aqui?

— Ia passando, vi D. Plácida à janela, e vim cumprimentá-la.

— Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem

alguma coisa... Olhai, gentes! Iaiá parece estar com ciúmes. E

acariciando-a muito: — Este anjinho é que nunca se esqueceu da

velha Plácida. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe... Sente-se,

senhor doutor...

— Não me demoro.

— Você vai para casa? disse Virgília. Vamos juntos.

— Vou.

— Dê cá o meu chapéu, D. Plácida.

— Está aqui.

D. Plácida foi buscar um espelho, abriu-o diante dela. Virgília punha o

chapéu, atava as fitas, arranjava os cabelos, falando ao marido, que

não respondia nada. A nossa boa velha tagarelava demais; era um

modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgília, dominado o

primeiro instante, tornara à posse de si mesma.

— Pronta! disse ela. Adeus, D. Plácida; não se esqueça de aparecer,

ouviu? A outra prometeu que sim, e abriu-lhes a porta.

CAPÍTULO CV / EQUIVALÊNCIA DAS JANELAS

D. Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei

imediatamente a alcova, e dei dois passos para sair à rua, com o fim

de arrancar Virgília ao marido; foi o que disse, e em bem que o disse,

porque D. Plácida deteve-me por um braço. Tempo houve em que

cheguei a supor que não dissera aquilo senão para que ela me

detivesse; mas a simples reflexão basta para mostrar que, depois dos

dez minutos da alcova, o gesto mais genuíno e cordial não podia ser

senão esse. E isto por aquela famosa lei da equivalência das janelas,

que eu tive a satisfação de descobrir e formular, no capítulo LI. Era

preciso arejar a consciência. A alcova foi uma janela fechada; eu abri

outra com o gesto de sair, e respirei.

CAPÍTULO CVI / JOGO PERIGOSO

Respirei e sentei-me. D. Plácida atroava a sala com exclamações e

lástimas. Eu ouvia, sem lhe dizer coisa nenhuma; refletia comigo se

não era melhor ter fechado Virgília na alcova e ficado na sala; mas

adverti logo que seria pior; confirmaria a suspeita, chegaria o fogo à

pólvora, e uma cena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas

depois? que ia acontecer em casa de Virgília? matá-la-ia o marido?

espancá-la-ia? encerrá-la-ia? expulsá-la-ia? Estas interrogações

percorriam lentamente o meu cérebro, como os pontinhos e vírgulas

escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados.

Iam e vinham, com o seu aspecto seco e trágico, e eu não podia

agarrar um deles e dizer: és tu, tu e não outro.

De repente vejo um vulto negro; era D. Plácida, que fora dentro,

enfiara a mantinha, e vinha oferecer-se-me para ir à casa do Lobo

Neves. Ponderei que era arriscado, porque ele desconfiaria da visita

tão próxima.

— Sossegue, interrompeu ela; eu saberei arranjar as coisas. Se ele

estiver em casa não entro.

Saiu; eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqüências possíveis. Ao

cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim

mesmo se não era tempo de levantar e espairecer. Sentia-me

tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a

vida. Por que não? Meu coração tinha ainda que explorar; não me

sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Em verdade, as

aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a

exceção; eu estava enfarado delas; não sei até se me pungia algum

remorso. Mal pensei naquilo, deixei-me ir atrás da imaginação; vi-me

logo casado, ao pé de uma mulher adorável, diante de um baby, que

dormia no regaço da ama, todos nós no fundo de uma chácara

sombria e verde, a espiarmos através da chácara uma nesga do céu

azul, extremamente azul...

CAPÍTULO CVII / BILHETE

Não houve nada, mas ele suspeita alguma coisa; está

muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez

somente, para Nhonhô, depois de o fitar muito tempo,

carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o

que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita

cautela, por ora, muita cautela.

CAPÍTULO CVIII / QUE SE NÃO ENTENDE

Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Esse

retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era

um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no

outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o

gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o ânimo dessas

poucas linhas traçadas à pressa; e por trás delas a tempestade de

outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e

medita, porque tem de resolver-se na lama ou no sangue, ou nas

lágrimas?

Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete três ou quatro vezes,

naquele dia, acreditai-o, que é verdade; se vos disser mais que o reli

no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crê-lo, é a

realidade pura. Mas se vos disser a comoção que tive, duvidai um

pouco da asserção, e não a aceiteis sem provas. Nem então, nem

ainda agora cheguei a discernir o que experimentei. Era medo, e não

era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade;

enfim, era amor sem amor, isto é, sem delírio; e tudo isso dava uma

combinação assaz complexa e vaga, uma coisa que não podereis

entender, como eu não entendi. Suponhamos que não disse nada.

CAPÍTULO CIX / O FILÓSOFO

Sabido que reli a carta, antes e depois do almoço, sabido fica que

almocei, e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas da

minha vida: um ovo, uma fatia de pão, uma xícara de chá. Não me

esqueceu esta circunstância mínima; no meio de tanta coisa

importante obliterada escapou esse almoço. A razão principal poderia

ser justamente o meu desastre; mas não foi; a principal razão foi a

reflexão que me fez o Quincas Borba, cuja visita recebi naquele dia.

Disse-me ele que a frugalidade não era necessária para entender o

Humanitismo, e menos ainda praticá-lo; que esta filosofia

acomodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa,

o espetáculo e os amores; e que, ao contrário, a frugalidade podia

indicar certa tendência para o ascetismo, o que era a expressão

acabada de tolice humana.

— Veja São João, continuou ele; mantinha-se de gafanhotos, no

deserto, em vez de engordar tranqüilamente na cidade, e fazer

emagrecer o farisaísmo na sinagoga.

Deus me livre de contar a história do Quincas Borba, que aliás ouvi

toda naquela triste ocasião, uma história longa, complicada, mas

interessante. E se não conto a história, dispenso-me outrossim de

descrever-lhe a figura, aliás muito diversa da que me apareceu no

Passeio Público. Calo-me; digo somente que se a principal

característica do homem não são as feições, mas os vestuários, ele

não era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca, um

general sem farda, um negociante sem deficit. Notei-lhe a perfeição

da sobrecasaca, a alvura da camisa, o asseio das botas. A mesma

voz, roufenha outrora, parecia restituída à primitiva sonoridade.

Quanto à gesticulação, sem que houvesse perdido a viveza de outro

tempo, não tinha já a desordem, sujeitava-se a um certo método.

Mas eu não quero descrevê-lo. Se falasse, por exemplo, no botão de

ouro que trazia ao peito, e na qualidade do couro das botas, iniciaria

uma descrição, que omito por brevidade. Contentem-se de saber que

as botas eram de verniz. Saibam mais que ele herdara alguns pares

de contos de réis de um velho tio de Barbacena.

Meu espírito, (permitam-me aqui uma comparação de criança!) meu

espírito era naquela ocasião uma espécie de peteca. A narração do

Quincas Borba dava-lhe uma palmada, ele subia; quando ia a cair, o

bilhete de Virgília dava-lhe outra palmada, e ele era de novo

arremessado aos ares, descia, e o episódio do Passeio Público

recebia-o com outra palmada, igualmente rija e eficaz. Cuido que não

nasci para situações complexas. Esse puxar e empuxar de coisas

opostas desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas

Borba e Lobo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia, e

mandá-los de presente a Aristóteles. Contudo, era instrutiva a

narração do nosso filósofo; admirava-lhe sobretudo o talento de

observação com que descrevia a gestação e o crescimento do vício,

as lutas interiores, as capitulações vagarosas, o uso da lama.

— Olhe, observou ele; a primeira noite que passei, na escada de São

Francisco, dormi-a inteira, como se fosse a mais fina pluma. Por quê?

Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau do

quarto próprio ao corpo da guarda do corpo da guarda à rua...

Quis expor-me finalmente a filosofia; pedi-lhe que não. — Estou

muito preocupado hoje e não poderia atendê-lo; venha depois; estou

sempre em casa. Quincas Borba sorriu de um modo malicioso; talvez

soubesse da minha aventura, mas não acrescentou nada. Só me

disse estas últimas palavras à porta:

— Venha para o Humanitismo; ele é o grande regaço dos espíritos, o

mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade. Os

gregos faziam-na sair de um poço. Que concepção mesquinha! Um

poço! Mas é por isso mesmo que nunca atinaram com ela. Gregos,

subgregos, antigregos, toda a longa série dos homens tem-se

debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade, que não está lá.

Gastaram cordas e caçambas; alguns mais afoitos desceram ao fundo

e trouxeram um sapo. Eu fui diretamente ao mar. Venha para o

Humanitismo.

CAPÍTULO CX / 31

Uma semana depois, Lobo Neves foi nomeado presidente de

província. Agarrei-me à esperança da recusa, se o decreto viesse

outra vez datado de 13; trouxe, porém, a data de 31, e esta simples

transposição de algarismos eliminou deles a substância diabólica. Que

profundas que são as molas da vida!


CAPÍTULO CXI / O MURO

Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta

página o caso do muro. Eles estavam prestes a embarcar. Entrando

em casa de D. Plácida, vi um papelinho dobrado sobre a mesa; era

um bilhete de Virgília; dizia que me esperava à noite, na chácara,

sem falta. E concluía: “O muro é baixo do lado do beco”.

Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descomunalmente

audaciosa, mal pensada e até ridícula. Não era só convidar o

escândalo, era convidá-lo de parceria com a risota. Imaginei-me a

saltar o muro, embora baixo e do lado do beco; e, quando ia a galgálo,

via-me agarrado por um pedestre de polícia, que me levava ao

corpo da guarda. O muro é baixo! E que tinha que fosse baixo?

Naturalmente Virgília não soube o que fez; era possível que já

estivesse arrependida. Olhei para o papel, um pedaço de papel

amarrotado, mas inflexível. Tive comichões de o rasgar, em trinta mil

pedaços, e atirá-los ao vento, como o último despojo da minha

aventura; mas recuei a tempo; o amor-próprio, o vexame da fuga, a

idéia do medo... Não havia remédio senão ir.

— Diga-lhe que vou.

— Aonde? perguntou D. Plácida.

— Onde ela disse que me espera.

— Não me disse nada.

— Neste papel.

D. Plácida arregalou os olhos: — Mas esse papel, achei-o hoje de

manhã, nesta sua gaveta, e pensei que...

Tive uma sensação esquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, em

verdade, um antigo bilhete de Virgília, recebido no começo dos

nossos amores, uma certa entrevista na chácara, que me levou

efetivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o

papel e... Tive uma sensação esquisita.

CAPÍTULO CXII / A OPINIÃO

Mas estava escrito que esse dia devia ser o dos lances dúbios. Poucas

horas depois, encontrei Lobo Neves, na Rua do Ouvidor, falamos da

presidência e da política. Ele aproveitou o primeiro conhecido que nos

passou à ilharga, e deixou-me, depois de muitos cumprimentos.

Lembra-me que estava retraído, mas de um retraimento que

forcejava por dissimular. Pareceu-me então (e peço perdão à crítica,

se este meu juízo for temerário!), pareceu-me que ele tinha medo —

não medo de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência;

tinha medo da opinião. Supus que esse tribunal anônimo e invisível,

em que cada membro acusa e julga, era o limite posto à vontade do

Lobo Neves. Talvez já não amasse a mulher; e, assim, pode ser que

o coração fosse estranho à indulgência dos seus últimos atos. Cuido

(e de novo insto pela boa vontade da crítica!) cuido que ele estaria

pronto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado de

muitas relações pessoais; mas a opinião, essa opinião que lhe

arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquérito

acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunstâncias,

antecedências, induções, provas, que as relataria na palestra das

chácaras desocupadas, essa terrível opinião, tão curiosa das alcovas,

obstou à dispersão da família. Ao mesmo tempo tornou impossível o

desforço, que seria a divulgação. Ele não podia mostrar-se ressentido

comigo, sem igualmente buscar a separação conjugal; teve então de

simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução, iguais

sentimentos.

Que lhe custasse creio; naqueles dias, principalmente, vi-o de modo

que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu

espero a indulgência dos homens pensadores!), o tempo caleja a

sensibilidade, e oblitera a memória das coisas; era de supor que os

anos lhe despontassem os espinhos, que a distância dos fatos

apagasse os respectivos contornos, que uma sombra de dúvida

retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; enfim, que a opinião se

ocupasse um pouco com outras aventuras. O filho, crescendo,

buscaria satisfazer as ambições do pai; seria o herdeiro de todos os

seus afetos. Isso, e a atividade externa, e o prestígio público, e a

velhice depois, a doença, o declínio, a morte, um responso, uma

notícia biográfica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma

página de sangue.

CAPÍTULO CXIII / A SOLDA

A conclusão, se há alguma no capítulo anterior, é que a opinião é

uma boa solda das instituições domésticas. Não é impossível que eu

desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas também

não é impossível que o deixe como está. De um ou de outro modo, é

uma boa solda a opinião, e tanto na ordem doméstica, como na

política. Alguns metafísicos biliosos têm chegado ao extremo de a

darem como simples produto da gente chocha ou medíocre; mas é

evidente que, ainda quando um conceito tão extremado não

trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os efeitos

salutares da opinião, para concluir que ela é a obra superfina da flor

dos homens, a saber, do maior número.

CAPÍTULO CXIV / FIM DE UM DIÁLOGO

— Sim, é amanhã. Você vai a bordo?

— Está doida? É impossível.

— Então, adeus!

— Adeus!

— Não se esqueça de D. Plácida. Vá vê-la algumas vezes. Coitada!

Foi ontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria

mais... É uma boa criatura, não é?

— Certamente.

— Se tivermos de escrever, ela receberá as cartas. Agora até daqui

a...

— Talvez dois anos?

— Qual! ele diz que é só até fazer as eleições.

— Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.

— Quem?

— Ali no sofá. Separemo-nos.

— Custa-me muito.

— Mas é preciso; adeus, Virgília!

— Até breve. Adeus!

CAPÍTULO CXV / O ALMOÇO

Não a vi partir; mas à hora marcada senti alguma coisa que não era

dor nem prazer, uma coisa mista, alívio e saudade, tudo misturado,

em iguais doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei

que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande

desespero, derramar algumas lágrimas, e não almoçar. Seria

romanesco; mas não seria biográfico. A realidade pura é que eu

almocei, como nos demais dias, acudindo ao coração com as

lembranças da minha aventura, e ao estômago com os acepipes de

M. Prudhon...

...Velhos do meu tempo, acaso vos lembrais desse mestre cozinheiro

do Hotel Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa,

havia servido nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos

palácios do Conde Molé e do Duque de la Rochefoucauld? Era insigne.

Entrou no Rio de Janeiro com a polca... A polca, M. Prudhon, o Tivoli,

o baile dos estrangeiros, o Cassino, eis algumas das melhores

recordações daquele tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre

eram deliciosos.

Eram, e naquela manhã parece que o diabo do homem adivinhara a

nossa catástrofe. Jamais o engenho e a arte lhe foram tão propícios.

Que requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de

formas! Comia-se com a boca, com os olhos, com o nariz. Não

guardei a conta desse dia; sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso

enterrar magnificamente os meus amores. Eles lá iam, mar em fora,

no espaço e no tempo, e eu ficava-me ali numa ponta de mesa, com

os meus quarenta e tantos anos, tão vadios e tão vazios; ficava-me

para os não ver nunca mais, porque ela poderia tornar e tornou, mas

o eflúvio da manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde?


CAPÍTULO CXVI / FILOSOFIA DAS FOLHAS VELHAS

Fiquei tão triste com o fim do último capítulo que estava capaz de

não escrever este, descansar um pouco, purgar o espírito da

melancolia que o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero

perder tempo.

A partida de Virgília deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros

dias meti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não

mente o Suetônio, mas a fisgá-las de um modo particular: com os

olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado

na rede, com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades,

ambições, um pouco de tédio, e muito devaneio solto. Meu tio cônego

morreu nesse intervalo; item, dois primos. Não me dei por abalado:

levei-os ao cemitério, como quem leva dinheiro a um banco. Que

digo? como quem leva cartas ao correio: selei as cartas, meti-as na

caixinha, e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão

própria. Foi também por esse tempo que nasceu minha sobrinha

Venância, filha do Cotrim. Morriam uns, nasciam outros: eu

continuava às moscas.

Outras vezes agitava-me. Ia às gavetas, entornava as cartas antigas,

dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcela), e

abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o pretérito... Leitor

ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um

dia a filosofia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao

longe, na penumbra, com um chapéu de três bicos, botas de sete

léguas e longas barbas assírias, a bailar ao som de uma gaita

anacreôntica. Guarda as tuas cartas da juventude!

Ou, se te não apraz o chapéu de três bicos, empregarei a locução de

um velho marujo, familiar da casa de Cotrim; direi que, se guardares

as cartas da juventude, acharás ocasião de “cantar uma saudade.”

Parece que os nossos marujos dão este nome às cantigas de terra,

entoadas no alto mar. Como expressão poética, é o que se pode

exigir mais triste.



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