Memória


A memória é uma forma, ou técnica, de contar história de vida, cuja narrativa estimula o uso ilimitável da imaginação, fictícia ou não fictícia.
Podemos reviver nossas memórias por assunto, isolado ou ligando um tema a outro, cronologicamente ou não. 
Essa é o jeito mais tradicional para se falar das lembranças de nossas vidas, que pode ser criativo, literário, poético, bem humorado.
Existe aquele jeito de contar história com uma narrativa realista, sem exageros ou invenções.
Vamos apresentar aqui modelos que mostrem a riqueza da memória para se escrever histórias de vida. 

https://social.stoa.usp.br/articles/0016/5313/MemA_rias_do_CA_rcere_Vol._I.pdf

Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos

Memórias do cárcere (edição da Record, em volume único) é o testemunho de Graciliano Ramos (1892-1953) sobre a prisão a que foi submetido durante o Estado Novo.

Uma narrativa de alguém que foi torturado, viveu em porões imundos e sofreu privações provocadas por um regime ditatorial.

Nas memórias, Graciliano descreve a companhia dos mais variados tipos encontrados entre os presos políticos. Fala da entrega de Olga Benário, mulher do líder comunista Luís Carlos Prestes, para a Gestapo, insinua as sessões de tortura aplicadas a Rodolfo Ghioldi e relata um encontro com Epifrânio Guilhermino, único sujeito a assassinar um legalista no levante comunista do Rio Grande do Norte.

Durante a prisão, diversas vezes Graciliano afirma destruir as anotações que poderiam lhe ajudar a compor uma obra mais ampla. Também dá importância ao sentimento de náusea causado pela imundice das cadeias, chegando a ficar sem alimentação por vários dias, em virtude do asco. 
Para ler a obra, clique no link:
https://drive.google.com/file/d/1ER-lm_QHFiEKlYWivnCcKhv4myOHUk1o/view

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Brás Cubas, o defunto-autor, narra sua história de vida na primeira pessoa, como exige uma autobiografia. 
Nascido numa típica família da elite carioca do século XIX, o morto, já no túmulo, fez uma dedicatória: 


Ao verme 
que 
primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver 
dedico 
como saudosa lembrança 
estas 
Memórias Póstumas 

Brás Cubas começa revendo a própria infância de menino rico, mimado e endiabrado: desde cedo ostentava o apelido de "menino diabo" e já dava mostras da índole perversa quebrando a cabeça das escravas quando não era atendido em algum querer ou montando num dos filhos dos escravos de sua casa, o moleque Prudêncio, que fazia de cavalo. 
Aos dezessete anos, Brás Cubas se apaixona por Marcela, "amiga de rapazes e de dinheiro", prostituta de luxo, um amor que durou "quinze meses e onze contos de réis", e que quase acabou com a fortuna da família.
A fim de se esquecer dessa decepção amorosa, o protagonista foi enviado a Coimbra, onde se formou em Direito, após alguns anos de boêmia desbravada, "fazendo romantismo prático e liberalismo teórico".
Retorna ao Rio de Janeiro por ocasião da morte da mãe. 
Depois de namorar inconsequentemente Eugênia, coxa de nascença, filha de D. Eusébia, amiga pobre da família, o pai planeja induzi-lo na política através do casamento e encaminha o relacionamento do filho com Virgília, filha do Conselheiro Dutra, que apadrinharia o futuro genro. Porém, Virgília prefere casar-se com Lobo Neves, também candidato a uma carreira política. 
Com a morte do pai de Brás Cubas, instaura-se um conflito entre ele e sua irmã, Sabrina, casada com Cotrim, por conta da herança.
Quando Virgília reaparece, reencontra-se com Brás Cubas e tornam-se amantes, vivendo no adultério a paixão que não tiveram quando noivos. 
Virgília engravida, no entanto a criança morre antes de nascer. 
Para manter discreta sua relação amorosa, Brás Cubas corrompe Dona Plácida, que por cinco contos de réis aceita figurar-se como moradora de uma casinha na Gamboa, que serve de alcova para os amantes. 
Segue-se o encontro do protagonista com Quincas Borba, amigo de infância que, agora miserável, rouba-lhe o relógio, devolvendo-lhe depois. 
Quincas Borba, filósofo doido, apresenta ao amigo o Humanitismo.
Perseguindo a celebridade ou procurando uma vida menos tediosa, Brás Cubas torna-se deputado; Lobo Neves é nomeado presidente de uma província e parte com Virgília para o Norte, assim termina a relação dos amantes. 
Sabina arranja uma noiva para Brás Cubas, a Nhã-Loló, sobrinha de Cotrim, de 19 anos, mas ela morre de febre amarela e Brás Cubas se torna definitivamente um solteirão. 
Brás Cubas tenta ser ministro de estado, mas fracassa; funda um jornal de oposição, outro malogro. 
Quincas Borba dá os primeiros sinais de demência. 
Virgília, já velha e desfigurada em sua beleza, solicita a Brás Cubas o amparo à indigência de Dona Plácida, que falece em seguida. 
Morrem também Lobo Neves, Marcela e Quincas Borba. 
A última tentativa de glória de Brás Cubas é o "emplasto Brás Cubas", remédio que curaria todas as doenças; ironicamente, numa de suas saídas à rua para cuidar de seu projeto, molha-se na chuva, apanha uma pneumonia e, após longo delírio, morre, aos 64 anos.
O defunto começa a contar, de trás para frente, a história de sua vida e escreve assim as últimas linhas do capítulo derradeiro:
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

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